terça-feira, 16 de julho de 2013

CINEMA:Em "O Homem de Aço", por que o filme merece ser visto, apesar de não termos Christopher Reeve, Marlon Brando, Margot Kidder, Gene Hackman, a música de John Williams e nem o diretor Richard Donner?

Nos anos setenta do século passado, diretores de cinema como Steven Spielberg, George Lucas, John Dante e Richard Donner criaram um novo estilo de filmes norte-americanos: os chamados blockbusters (ou filmes "arrasa-quarteirão"). São filmes de grande orçamento, grande elenco e grandes plateias, que inflavam o orçamento (e o lucro) dos grandes estúdios de cinema, lotando salas e teatros, fazendo a festa de todo um público infanto-juvenil e criando a geração nerd de hoje. Eram filmes como TubarãoStar  Wars  e Os Caçadores da Arca Perdida (o primeiro de Spielberg, o segundo de Lucas e o terceiro resultante de uma parceria entre ambos os diretores). Mas foi Donner quem introduziu o universo das histórias em quadrinhos de super-heróis para o cinema, com uma nova estética, através do seu Superman.

Sou hoje, com orgulho, um desses velhos nerds. Assim como também são diretores trintões e quarentões como J.J.Abrahams (criador da série de TV, Lost), Robert Rodriguez e Zack Snyder. A este último coube dirigir o remake do super-homem nos cinemas, contando com o ar galante e esbelto do ator inglês Henry Cavill (da série Tudors e do filme "Imortais") fazendo o protagonista de superpoderes. São inúmeras as comparações com o superman original, do filme de Donner, quando o finado  ator Christopher Reeve galgou o estrelato através de um filme que o marcou para sempre. Entretanto, além das diferenças serem grandes, a forma como os diretores de ambos os filmes (Donner e Snyder) abordaram a história do personagem mais famoso das HQs tem nuances que levam o fã a conhecer universos bem distintos de um mesmo personagem, talvez (ou não) mais adequado a seu tempo.

Em relação ao primeiro Superman, lembro-me claramente do primeiro filme, assistido no cinema em Belém do Pará, no antigo Cine Palácio, em 1979, quando fui com meus pais assistir ao antológico filme de Richard Donner, cuja estreia nos Estados Unidos se deu no ano anterior. Naquele tempo não existia internet e nem celulares, e a divulgação do filme se dava mais por comerciais na televisão. Naquela época eu já colecionava gibis, frequentando bancas de jornais e revistas, e já lia as histórias do Super-Homem. Ainda não existiam os cinemas kinoplex ou multiplex, com suas salas numerosas nos shopping-centers de hoje. Os cinemas eram de rua, em grandes prédios, construções suntuosas que abrigavam anfiteatros enormes, perante uma tela gigante, num auditório onde cabiam mil, duas mil, até três mil pessoas. Hoje em dia, recordo-me que cinemas desse tipo (como foram os extintos Cines Rio Grande, Nordeste e Rex, em Natal) só existem hoje no Brasil em Recife (Cine São Luiz) e no Rio de Janeiro (Cine Roxy); apesar de, na nossa vizinha Argentina, esses belos cinemas ainda fazerem parte do cotidiano cultural dos habitantes da capital, Buenos Aires.

Imagine-se então como um garoto de 8 anos, vendo pela primeira vez na vida, em uma tela, um cara alto, de roupa azul e capa  vermelha, subindo os céus de uma fictícia  cidade de Metrópolis,  salvando a vida de um operário que acabara de cair de um edifício, segurando-o no ar no instante em que caía, segundos antes dele se esborrachar no chão, produzindo não só na multidão presente na cena dentro do filme, mas também nos espectadores de fora, de dentro do cinema, um grito de euforia coletiva e uma salva estrondosa de palmas, tamanha a emoção da cena. Essa era a emoção do primeiro Superman! No tempo em que as cabines telefônicas de rua eram trambolhos gigantescos, e dentro daquela caixa fosca de vidro, um engravatado Clark Kent poderia se esconder, para trocar de roupa em milésimos de segundos, até aparecer como seu alterego, detentor de superpoderes, voando pelos céus da cidade, enquanto a população embasbacada perguntava: "é um pássaro, um avião...?". A magia do Super-Homem era a magia dos filmes que traduziam em realidade, cores e movimento de cenas que nós, leitores de gibis, apenas víamos paradas em pequenas tiras de jornal ou em revistinhas compradas a dez cruzeiros nas bancas. Superman trazia à tona os nosso sonhos de ter superpoderes para fazer coisas boas diante de tantas guerras e maldade. O Super-Homem era nossa vontade de potência!!

A graça do filme se completava com as origens do herói, num distante planeta Kripton, mostrado com economia de detalhes, mas com a firmeza da atuação de uma lenda do cinema, como Marlon Brando, interpretando Jor-El, pai biológico do herói. O filme ainda tinha uma vilão imperdível, um Lex Luthor que demonstrou bem porque era considerado o maior arqui-inimigo do Super-homem, numa perfomance que demonstrou porque o filme era tão bom, não só por ser bem dirigido e pelos efeitos especiais (considerados os melhores de sua época); mas também pela atuação de seus atores. Lois Lane que o diga, a namorada do herói, interpretada por uma elétrica Margot Kidder, atriz canadense que depois do papel que a celebrizou, despencou ladeira abaixo no anonimato, drogas pesadas e tratamento psiquiátrico, enquanto que Reeve, protagonista do longa-metragem e ator principal, amargou a maldição dos intérpretes do "homem de aço", vindo a ficar tetraplégico ao cair numa competição de hipismo, morrendo anos depois numa cadeira de rodas.

Apesar do sucesso e das maldições, o primeiro Superman ficou na história porque acertou no ator que o interpretaria. Chistopher Reeve era a transmutação ideal do Clark Kent criado nas histórias em quadrinhos para o cinema. Por falar em HQ, o filme foi absolutamente fiel aos personagens de papel, com um plus de ter entre eles um elenco estelar. Jor-El, que somente aparecia no começo do filme e em poucas cenas, era interpretado por Brando, uma lenda do cinema. O vilão Lex Luthor era feito por um Hackman recentemente vencedor do Oscar, por sua atuação em Operação França. E a direção de Donner era acertada como um relógio. Não é à toa que, até hoje, o filme é considerado uma das maiores bilheterias do cinema e um dos maiores filmes de super-herói já feito na história (junto com Batman, de Nolan). O Superman encarna o ideal altruísta norte-americano, mas também representa uma figura mítica. Como nosso totem moderno, o super-homem (homônimo daquele da filosofia, retratado por Zaratustra, nas reflexões de Nietszche) é a imagem da divindade, uma espécie de "Cristo alienígena", que vindo de outro planeta sem os pecados humanos, acabou por ensinar a humanidade a ser melhor, fazendo bem ao próximo, através do uso de seus superpoderes, combatendo o mal. Quem não gostaria de ter um anjo alado protegendo-o, livrando-o de perigos e acidentes, pelo simples uso de uma superforça ou mediante sua visão de calor? O Super-Homem representa até hoje o que queremos de melhor para nós, uma visão idealizada e pueril da humanidade ideal.

Como então traduzir tudo isso, reflexão filosófica,  ficção científica, sentimentalismo e puro entretenimento num filme novo, para as novas gerações? É aí que entra o "Homem de Aço" (Man of Steel). Depois do êxito de outras adaptações dos quadrinhos para o cinema, como 300 e Watchtmen, Zack Snyder chamou para si a responsabilidade de reviver o herói mais clássico do século XX para as novas gerações. Mas como tornar o super-homem novamente atraente, se os últimos filmes para o cinema foram um fracasso (vide Superman IV, em 1987 e Superman-o Retorno, de 2006)? Com o sucesso do Homem-Aranha, dos X-Men e do Homem de Ferro da Marvel, e a consagração do Batman, da DC, através da excelente refilmagem feita pelo diretor Chistopher Nolan, que recriou o personagem nos cinemas, faltava a outro herói icônico dos quadrinhos uma volta triunfal. O primeiro passo foi a obviedade, eliminando-se do título do filme e em todo o decorrer da história, o nome do personagem. Isso mesmo, pela primeira  vez na história do cinema um filme de super-homem não teria o nome de super-homem em seu título. Além disso, o roteiro do novo filme afastou-se da fidelidade às primeiras histórias do personagem nos quadrinhos (como ocorreu no filme do Superman original), preferindo se prender a uma nova cronologia, e uma nova forma mais moderna de abordar cada personagem da biografia do herói, dando-lhe uma nova roupagem. Foi isso que aconteceu, por exemplo, tanto com os pais biológicos de Kar-El (nome kriptoniano do "homem de aço"), Jor-El e Lara,  quanto com os pais adotivos terrestres de Clark, Jonathan e Martha Kent, interpretados no novo filme, respectivamente, por Russel Crowe (ótimo), Ayelet Zurer, Kevin Costner e Diane Lane (estes últimos, a grande ponta dramática do filme). 

O foco do novo filme é mais existencial (como se tornaram também as histórias em quadrinhos do herói na última década), permanecendo por meia hora de filme um Clark Kent barbudo, andando como um viajante, um sem-teto superpoderoso pelas entranhas da América nua e crua, procurando se encontrar e praticando grandes atos no meio do caminho, após saber de seus pais adotivos que não era desse planeta. A chance de se redimir com seu passado é quando Clark descobre no Ártico uma nave alienígena congelada há milhares de anos, onde, através de um holograma, ele recebe uma mensagem de seu pai verdadeiro, que esclarece seu passado e seu propósito no universo. Logo, Clark descobre que seu nome verdadeiro é Kal-El e o motivo para ter uma força sobre-humana, ter todos os sentidos superaguçados, poder voar a longas distâncias, além de poder prender a respiração por várias horas embaixo d'água e ser praticamente indestrutível, diz respeito à radiação do Sol da Terra, muito mais forte do que o seu planeta natal, Kripton, destruído por uma hecatombe, depois que sua população consumiu predatoriamente todos os recursos naturais do planeta. Clark então tem que decidir de que mundo ele será cidadão. Se de seu planeta de origem, ajudando a recriar o seu povo, ou se da Terra, protegendo aqueles do planeta que o acolheu; apesar da desconfiança do governo e do exército americano. É o velho mito do imigrante querendo se integrar, que deve ter  passado pela cabeça dos criadores do super-herói,os desenhistas Jerry Siegel e Joe Shuster, em 1938, numa América e numa Europa às vésperas da II Guerra Mundial, que ainda repudiava judeus e estrangeiros, por mais que eles fossem dedicados ao país para que vieram.

Destaque importantíssimo para o vilão, que na nova história não é mais o arqui-inimigo Lex Luthor, mas sim o general kriptoniano Zod, interpretado anteriormente  nos anos oitenta, em Superman II, pelo premiado ator britânico Terence Stamp, e no novo filme é representado pela atuação do esforçado Michael Shannon. O vilão é um militar alienígena que ao tentar dar um golpe de Estado em Kripton, antes de sua destruição, acabou sendo derrotado e enviado para o exílio num grotão da galáxia chamado de Zona Fantasma, jurando a si mesmo encontrar no futuro o filho de Jor-El, responsável indireto por seu infortúnio e última esperança de Kripton; por carregar consigo o segredo para recriar sua civilização. Zod não está sozinho, e encontra-se acompanhado de sua esposa, a violenta e mortal Faora (a bela atriz alemã Antje Traue), além de uma turba de mercenários kriptonianos que vieram a Terra com o único objetivo de destruir o planeta e, consequentemente, o Superman.

Do lado dos mocinhos, a bonita ruiva Amy Adams tenta ser o par ideal do protagonista, interpretando uma repórter Lois Lane destemida e sempre pronta a auxiliar o amado, mesmo que seja embarcando numa nave alienígena, ou num ataque militar, voando com uma bomba, a atingir os inimigos do herói. Sobrou até para os personagens do Planeta Diário, o jornal de Metrópolis onde trabalha o bonachão chefe de Lois, onde encontramos um Perry White que de "white" ficou "black", ao ser interpretado pela primeira vez no cinema, na nova versão, por um ator negro: o competente e consagrado astro, Lawrence Fishburne. Entretanto,  para os fãs mais radicais das histórias em quadrinhos, o roteiro de  David Goyer, que contou com a colaboração do próprio Nolan, responsável pelo sucesso de Batman, parece que em alguns momentos da trama, ficou meio que uma forçação de barra, desrespeitando, inclusive, um dos princípios básicos do herói: quanto ao não emprego de sua superforça para matar. Porém, penso que isso foi um detalhe, a meu ver, observado pelos idealizadores do filme, diante de um universo de heróis que são retratados para as novas gerações com novas nuances, nem sempre tão satisfatórias ou elogiáveis. Ao tentar mostrar um super-homem mais humano (como se isso fosse possível, já que ele não é deste planeta), Man of Steel correu o risco de manchar a biografia do personagem nos cinemas. Mas foi um risco calculado, pois levou em conta não apenas a revisão da mitologia do personagem, como também criou novos mitos, a começar pelo novo significado do "S" estampado no peito, como emblema do uniforme do herói. Por falar em uniforme, até este mudou, desaparecendo um super-herói de calção para surgir um de calças, deixando-se para sempre a imagem motivo de piadas na internet das novas gerações, pela cafonice de se usar uma cueca vermelha por cima da calça azul.

Bem! Se o que interessa é lucro, na sua estreia, na primeira semana de apresentação nos cinemas dos Estados Unidos e Europa, o filme se pagou, dando ao estúdio Warner, responsável pelo longa-metragem, um lucro inicial de 170 milhões de dólares e a garantia de uma continuação, criando-se uma nova franquia. No Brasil ainda é cedo para saber se o filme terá a mesma boa recepção que tiveram Os Vingadores e Homem de Ferro 3, da Marvel ( o que acho difícil). Mas, se não conseguir se tornar um sucesso retumbante, com direito a Oscar, como foi com  Batman-O Cavaleiro das Trevas, ao menos "O Homem de Aço" não vai passar a vergonha do fracasso total, como foi com  o equivocado filme do Lanterna Verde ou o último do Wolverine ( o próximo filme do personagem, a estrear este ano, por falar nisso, quer redimir isso). Man of Steel é um filme bom, mas um bom mediano. Faltou a ele a emoção grandiosa do primeiro Superman, com suas cenas genuinamente feitas para serem uma "história em quadrinhos relatada na tela grande", ou um romance dramático, com direito a lágrimas e choro incontido, quando no final do filme original um indignado Christopher Reeve percorre aos gritos os céus do planeta Terra, mudando a velocidade do globo terrestre para voltar no tempo, e assim salvar sua amada Lois Lane, que minutos antes jazia morta, enterrada no seu carro, após cair em uma cratera durante um terremoto no deserto.Tal cena impactante gerou a música "Super-Homem", composta por Gilberto Gil, ao lado de seu amigo Caetano, que assim como eu, emocionaram-se com um genuíno blockbuster de qualidade, no final dos remotos anos setenta.

E por fim, em relação à música. Se não temos mais o hino do Superman, feito por John Williams, que por décadas marcou o personagem, agora temos a tocante música ao piano de Hans Zimmer a percorrer toda a história. Pra quem viu o primeiro Superman no cinema, sabe-se que a trilha sonora teve um papel primordial, ao carregar no nível de emoção na exibição de cada cena. Já no filme de Snyder a música tem papel secundário. De qualquer forma, vale a pena escutar a música no finalzinho do filme, já com os créditos finais. E lembrar dela numa das cenas mais tocantes e nostálgicas do filme, onde, em flashback, o Super-Homem relembra como foi sua infância, a relação e as lições de vida que obteve com seu falecido pai adotivo, Jonathan Kent. É de dar lágrimas nos olhos! É por ainda sentir o peito batendo mais forte, ao lembrar do sentimento daquele garoto de 8 anos, vendo um ser com superpoderes cruzando os céus de Metrópolis, que eu recomendo assistir ao "Homem de Aço". Como diz o personagem principal, o que importa ao chegar na sala do cinema é se desprender de todo o peso da realidade e encarar a emoção da fantasia, subindo aos céus com sua capa vermelha e um ar triunfante, gritando bem alto: "PARA O ALTO, E AVANTE!!".

segunda-feira, 8 de julho de 2013

POLÊMICA: Acerca dos cubanos, afinal, o que querem os médicos brasileiros?

Ninguém questiona que o exercício da medicina é uma das mais nobres funções na humanidade, pois consiste em tratar doentes, lidar com a saúde das pessoas e, em algumas situações, até mesmo curar. Digo isso porque a própria palavra ars medicina deriva do  latim, e significa ao pé da letra: "arte da cura". Estes profissionais seguem o juramento de Hipócrates, considerado o "pai da medicina", que entre 460 a 377 a. C. buscava diagnosticar doenças em seus pacientes, valendo-se de conhecimentos rudimentares adquiridos das nascentes ciências naturais, como a física e a química. Médicos são formados e pagos para curar (ou tentar curar), e num país de dimensões continentais como o Brasil, onde existem milhares de locais inóspitos e distantes, há milhares de pessoas pobres, vivendo na miséria e em barracões de barro, que necessitam do auxílio de médicos.

Eis que nas últimas semanas, além dos inéditos protestos e mobilizações de rua que sacudiram o Brasil, por meio do movimento social Passe Livre, agora são os médicos que vão às ruas protestar. Melhores condições para a saúde? Atendimento decente e de qualidade aos enfermos da rede pública? Até que vai! Mas o cerne dos protestos que fez os médicos irem para as ruas foi outro: a contratação de médicos cubanos.

Cuba é considerado um dos países com o melhor sistema de saúde do mundo, apesar  da crise política do governo de Raul Castro e de suas enormes dificuldades econômicas. O sistema de saúde cubano foi mostrado nos cinemas através do documentário Sicko-S.O.S Saúde, do aclamado (e polêmico) diretor norte-americano e ativista de esquerda, Michael Moore. O filme, disponível no youtube, mostra que apesar do rico e bem equipado sistema de saúde norte-americano fazer alguns médicos milionários, como um "Doctor Rey" da vida, é em Cuba que cidadãos de baixa renda e que não tem condições de pagar um caríssimo plano de saúde privado, podem tratar de suas doenças e obter, a preços irrisórios, os tão necessários medicamentos para tratar de suas enfermidades. O tempo de formação de um estudante de medicina em Cuba é geralmente de três a quatro anos, e os salários pagos a esses profissionais na ilha caribenha são baixíssimos, o que leva centenas de médicos cubanos a procurarem paralelamente à atividade profissional principal, desenvolver alguns bicos, para arrecadar dólares num país onde o turismo se tornou a atividade econômica principal.


Mas apesar de todos os problemas, os médicos cubanos ainda são muito requisitados, em convênios e programas de assistência mútua entre países em todo o mundo. O papel desses profissionais na África, por exemplo, indo a lugares onde muitos profissionais da medicina jamais gostariam de estar, rendeu elogios e o reconhecimento das Nações Unidas até hoje. No Brasil, na outra faceta do país que não mostra nem de longe a prosperidade dos emergentes e nem os sorrisos de Neymar e a bem-sucedida seleção de futebol do Felipão na TV, existe ainda um Brasil onde no interior de suas grandes regiões permanecem populações sem o menor atendimento médico. São famílias pobres, de camponeses ou pescadores, situadas em sua maioria na zona rural, principalmente nas regiões norte e nordeste do país, que não tem atendimento médico, sequer hospitais. É para esses lugares que o governo tem dificuldade de alocar recursos e manter médicos, visto que muitos desses profissionais, quando terminam a faculdade, atuam no setor público apenas nas grandes cidades, e para não se distanciar de seus familiares geralmente preferem ficar na zona urbana, nos grandes centros, onde as oportunidades de trabalho e remuneração são mais atraentes, principalmente no setor privado. Na luta pela sobrevivência, é natural que um profissional formado, da área de medicina no Brasil, busque melhores condições que lhe garantam um bem estar e remuneração condizente à responsabilidade e seriedade da profissão.

O problema é que, justamente pela falta de médicos, o governo federal, da presidente Dilma Roussef, decidiu priorizar a contratação de médicos estrangeiros, para atuarem pelo SUS nas regiões mais necessitadas do país, dentro do pacote de medidas governamentais adotado para aplacar os protestos das multidões nos últimos dias, e atendendo a reivindicação popular por atendimento na rede pública de saúde. Com isso, gerou-se um protesto corporativo na comunidade médica, vindo as associações e sindicatos representativos da profissão iniciar uma série de comunicados, protestos e ameaça de greves, diante da contratação dos profissionais estrangeiros. 

Entenda-se que o governo pretende contratar, em caráter temporário, não apenas médicos cubanos, mas também profissionais de outros países, como médicos espanhóis e portugueses, afetados pelo desemprego e recessão diante da crise econômica na Europa. Na Inglaterra, país com um dos melhores sistemas de saúde do mundo, 30% do efetivo de seus médicos é de estrangeiros, contando com profissionais formados  em diversas nações como Índia e Paquistão. Enquanto isso, no Brasil, apenas 1,7% dos médicos é de outra nacionalidade. Ao invés de ser uma demonstração de nacionalismo e valorização da "prata da casa", a ausência de médicos estrangeiros no país revela o tamanho de nosso atraso em relação às demais nações globalizadas, e fato extremamente preocupante, no momento em que a saúde pública e a necessidade premente de atender milhares de pessoas enfermas, sucumbe diante de interesses corporativistas.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, existem ao menos 33 cidades onde o médico não mora onde trabalha. Isso em regiões onde o salário bruto de um médico pode chegar a 18,5 mil reais; o mesmo de um prefeito ou um magistrado. Segundo o secretário de saúde do pequeno município de Mariana Moro, na divisa do estado com Santa Catarina, há 50 quilômetros de Erechim, um dos principais motivos de não haver médicos nas licitações e nem aparecerem esses profissionais nos concursos públicos feitos pela Prefeitura, é de que "não há estrutura e nem mercado". Para o presidente da Associação Paulista de Medicina, Florisval Meinão, "médicos querem trabalhar no Primeiro Mundo". Assim, fica difícil manter esses profissionais em grotões de pequenas cidades, uma vez que as condições de trabalho muitas vezes são inóspitas e esses profissionais por vezes tem medo que seus salários atrasem.

Ora, independente da questão salarial, o que se vê no caso dos médicos brasileiros contra a vinda dos estrangeiros diz muito mais respeito a um flagrante interesse corporativo, em detrimento de toda a sociedade, além de demonstrar  um forte ranço ideológico. No evento ocorrido há uma semana em Natal, no Rio Grande do Norte, o que se viu foi uma passeata de 400 "gatos pingados", com camisas da associação dos médicos do RN, alguns vestidos a caráter, de branco, com lenços na cabeça e no rosto, como forma de demonstração de que a categoria dos médicos estaria insatisfeita com a chegada dos médicos estrangeiros. Entre os presentes eu só pude ver alguns médicos que se tornaram políticos e parlamentares, dos partidos e legendas mais conservadores e voltados ao espectro da direita, pois não identifiquei pelas fotos dos jornais qualquer representante da área médica que fosse filiado e eleito por partidos de esquerda, como PT, PSOL ou PC do B. O  que vi, na verdade, foi uma pequena caminhada de representantes dos segmentos mais tradicionais e elitistas da sociedade, onde muitos deles sequer trabalhou em uma clínica ou hospital de interior, e jamais atendeu pessoas pobres e enfermas em uma favela.

O problema da contratação de profissionais da medicina estrangeiros, principalmente cubanos, é, portanto, mais um problema corporativo e ideológico do que uma questão de saúde pública. Sob o pretexto de que estão defendendo o sistema de saúde brasileiro, exigindo necessário aprimoramento, muitos médicos brasileiros, através de seus sindicatos e associações, estão apenas exigindo melhorias pro seu próprio bolso, afugentando a concorrência por meio de um questionável exame de revalidação de diplomas. Como confiar na seriedade desses exames, quando existe no Brasil um fonte sentimento corporativista, que hostiliza estrangeiros, numa necessidade de autoafirmação de que nossos profissionais, aqui no país, já são bons demais? Para se dar apenas um exemplo pessoal, eu já fui atendido por médicos no Rio Grande do Sul, que se vangloriavam de que naquela região trabalhavam os profissionais mais gabaritados e mais bem treinados do país, e foi numa consulta com uma oftamologista que se orgulhava disso, é que recebi a prescrição da receita errada de um medicamento, e quase fiquei cego por um dia inteiro, ao colocar nos olhos um colírio errado. Somente faço essa crítica, justificando para que alguns amigos médicos não fiquem chateados, para questionar o argumento de que os médicos estrangeiros não seriam bons o suficiente, e por isso haveria a necessidade de revalidação de seus diplomas. Afinal, segundo os defensores desse argumento, não podemos deixar entrar no Brasil "qualquer açougueiro", não é isso?!

Exigir que no Brasil, os conselhos de classe revalidem os diplomas de profissionais que vem do exterior é verdadeiramente um tiro no pé, na medida em que, por dados do próprio CRM, o índice  de reprovação para aqueles que tentam revalidar seu diploma do país de origem no Brasil é de quase 90% (noventa por cento). Por que uma reprovação tão exagerada? Será que nenhum desses profissionais, que vem de diversas partes do globo, tem a competência para manusear um bisturi, cuidar de uma fratura ou prescrever medicamentos? O governo federal, através do Ministro da Saúde, o médico Alexandre Padilha, já disse que só virão para o Brasil os médicos cujos diplomas tenham a devida deferência e rigor técnico de apuração, atestado conforme diretrizes da Organização Mundial de Saúde. Será que isso não é suficiente?

Sob pena de intensificarmos ainda mais o quadro deplorável, da falta de atendimento há milhares de pessoas pela inexistência de médicos (vide, por exemplo, regiões como Roraima, onde só existe um médico para cada dez mil pessoas), urge que profissionais estrangeiros sejam contratados, e vão para regiões distantes do país, onde nenhum médico nativo quer ir. Apesar de vivermos uma realidade capitalista, não posso admitir observar a mesquinha sanha corporativa de algumas associações desses profissionais, que vão a medicina apenas como negócio, e não como uma bela arte de curar e salvar vidas. É por só ver as questões médicas como questão de mercado que vivemos em várias regiões pobres do país uma realidade verdadeiramente africana, que como disse o sociólogo e ex-ministro da Cultura, Francisco Weffort, nos assombra ao sairmos da ilusão primeiromundista de nossas grandes cidades e entrar no interior, nas grandes e depauperadas regiões do Brasil, onde predomina a miséria e o esquecimento governamental. Que os médicos brasileiros não sejam obrigados a ir para onde não queiram, mas que também eles não nos obriguem a manter essa realidade de miséria e falta de atendimento, pela falta de médicos estrangeiros, tão necessários num momento urgente, em que as multidões vão às ruas do país pedir por melhorias efetivas em serviços básicos, como saúde e educação. Que o juramento de Hipócrates, entoado nas cerimônias de formatura dos cursos de medicina, seja feito de novo, ao menos no sentido de apoiar o óbvio, que é o de mais médicos para a população, independente de sua nacionalidade. Se não ajudam, que aqueles que se opõem a isso ao menos não atrapalhem. Os enfermos da sociedade brasileira agradecem!
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