terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

MÚSICA: I Have Nothing-A morte de Whitney Houston é o adeus fatal das divas trágicas


Mais uma celebridade que morre tragicamente.
Whitney Houston não está mais entre nós.
 Vou estar mentindo se eu disser que era um fã de carteirinha, do trabalho da cantora Whitney Houston, encontrada morta sábado, dia 11 de fevereiro, tragicamente em um dos quartos do hotel Hilton, em Beverly Hills, dentro de uma banheira, com sinais aparentes de ter morrido por afogamento. Quando a cantora estourou, na segunda metade da década de 80, eu já gostava de algumas artistas oriundas da soul music ou da fase disco da música negra norte-americana, como  Diana Ross, Aretha Franklin ou Donna Summer. Eu preferia muito mais Tina Turner, já veterana, uma quarentona com sua vasta cabeleira encorpada, tingida de loiro, voz forte, meio rouca e seus requebrados geriátricos com um belo par de pernas ainda para mostrar. Já a Whitney eu achava pop demais (se é que pode existir algo que não seja excessivamente pop nos dias de hoje). Mas tenho de reconhecer: Whitney Houston legou uma voz, e uma legião de fãs, e fez parte da história da música popular nas últimas décadas. Por isso, sua obra merece ser homenageada.


Uma jovem e linda Whitney Houston, simbolizava a nova
face da Black Music nos anos oitenta
 Talvez como muitas das lendas da música pop, como o recente falecimento há poucos meses de outra estrela, Amy Winehouse, a morte de Whitney Houston seja marcada por uma história de fama, prestígio, sucesso mundial, prêmios, vários discos vendidos e aparições no cinema, tão fascinante quanto o histórico de excessos, as brigas homéricas com o ex-marido, o alcoolismo e o vício em drogas pesadas, a decadência pública com a perda da voz e o desaparecimento da vendagem de discos, a anorexia produzida à base de álcool e barbitúricos, além da tentativa de redenção, que nunca chegou. Michael Jackson, Amy Winehouse e Whitney Houston tem muito em comum, falecendo cada no seu ano respectivo, numa ciranda macabra de estrelas decadentes que subiram bem alto no hall da fama das celebridades e que se eternizaram tanto pelo sucesso que fizeram em vida, quanto pelas circunstâncias trágicas em que morreram. No caso de Whitney (assim como Michael) já fazia anos que o sucesso não batia a sua porta, revelando que a ex-estrela já estava distante do auge e fora de forma há muito tempo. Whitney Houston simboliza uma década e uma América que já não voltam mais, mas que deixaram marcas indeléveis no show business de hoje.


Na época do seu segundo álbum, nos anos oitenta,
Whitney já era considerada imbatível.
 Só para se ter uma ideia: Whitney Houston estava para os anos oitenta e noventa como Beyoncé está para os dias de hoje. Ao surgir na década de 80, lançada pela indústria fonográfica, Whitney representava o modelo bem sucedido da fábrica de hits , astros e estrelas que era a gravadora Motown e suas congêneres da música negra norte americana: linda, negra, oriunda do ambiente gospel e com uma voz maravilhosa. Foi com sua beleza física e de voz, aliada a um carisma inegável nos palcos que a jovem Whitney saiu dos corais da Igreja Batista onde congregava, para brilhar como estrela principal nos clipes da MTV, nas festas do Grammy, ou em shows apoteóticos em estádios, teatros e intervalos do Superbowl nos Estados Unidos(os jogos televisionados de futebol americano, vistos no país inteiro). Ela cantou até na final da Copa do Mundo de 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato em solo ianque.


Mais madura. A cantora tentava outros caminhos, no final
da década de 90.
 Whitney estava com tudo. Se sua prima Dionne Warwick tinha sido a duquesa do pop, Whitney tinha se tornado a sua rainha, vendendo discos como quem vendia picolés na praia em dias quentes de verão, contabilizando mais de 200 milhões de discos vendidos, segundo dados da Wikipédia. Recordo-me que na época do seu auge, a cantora estampava quase que semanalmente as capas de revistas de música e celebridades, e sua ida para o cinema foi só uma questão de tempo. Depois de uma pequena participação em um filme na década de oitenta, em 1992 Whitney estrelou com o ator Kevin Costner, o filme O Guarda-Costas (The BodyGuard). Filme que todo mundo já viu e que é reprisado até hoje nas Sessões da Tarde.  Na época, a formação de um par romântico entre um astro de cinema (também agora decadente) oscarizado e uma diva consagrada da música pop, foi a combinação irresistível para um filme esquecível do ponto de vista da crítica; mas imperdível para quem gostava de louvar seus ídolos pop. As pessoas iam ao cinema porque ali estava Whitney, interpretando uma personagem que era ela mesma, uma cantora de sucesso, cantando a música-tema do filme, I Will Always Love You, que nem era dela (mas baseada num sucesso das antigas, cantada por Dolly Parton, nos anos setenta), mas que se tornou inconfundível através de sua voz, sendo escutada até hoje nas FMs do mundo inteiro.


O casamento com Bobby Brown, para muitos críticos,
foi o começo da decadência da cantora.
 Mas, assim como colheu duas décadas de êxitos, Whitney conheceu a derrocada na vida profissional e pessoal, com a chegada dos anos 2000. Ela teve um casamento conturbado com o rapper Bobby Brown, outro remanescente dos grupos de sucesso dos anos oitenta (era um dos integrantes do New Ediction, boy band muita ouvida na época). As idas e vindas do relacionamento repleto de brigas, chegada da polícia e baixarias em público faria corar Ike e Tina Turner (outro casal cujo talento musical era diretamente proporcional aos casos de violência doméstica). Após 7 anos de convivência e a concepção de uma filha, Bobby Cristina, Whitney separou-se de Brown; não sem antes reconhecer de público seu alcoolismo e vício frenético em cocaína, suposta razão pela qual a cantora teve um casamento tão atribulado.


Uma Whitney envelhecida e irreconhecível, após uma das
idas e vindas dos centros de reabilitação para drogados.
 Eis que as drogas cobraram seu preço. Não tendo mais a mesma voz de antes, Whitney Houston aparecia cada vez mais magra e pálida diante das câmeras nos eventos, e sua degradação era visível. Ela ainda tentou um retorno no final da década passada, lançando o álbum I Look to You, em 2009, mas ela não apresentava mais o carisma e o vigor de antes. Apesar das intervenções estéticas, discursos otimistas, afirmando estar livre das drogas após passar por clínicas de reabilitação e os esforços dos produtores, Whitney parecia uma pré-senhora de meia idade cansada, ainda bonita apesar dos percalços da vida, mas bem distante daquela musa negra cheia de vida e beleza que tinha brilhado vinte anos antes.O fim, que parecia estar proximo, finalmente chegou aos 48 anos.


Apesar de supostamente recuperada, a aparência magra ainda
retratava os traços da dependência química.
 As primeiras estimativas da imprensa e da polícia norte-americana acerca das causas da morte da cantora são uma combinação de álcool e drogas que culminou em afogamento. Sabe-se que em seus últimos dias, Whitney Houston utilizava muito de antidepressivos, e isso pode ter contribuído para abreviar sua vida. Mesmo que não tenha se drogado horas antes de sua morte, a verdade é que o corpo da cantora já tinha sido muito castigado pelos anos recentes de excessos e pelo uso indiscriminado de várias substâncias químicas. De qualquer forma, sofrimento maior devem estar passando seus familiares, especialmente sua filha de 18 anos, obrigada a conhecer a tragédia de perder uma mãe bem no começo de sua vida adulta; bem como do ex-marido da cantora, Bobby Brown, que a essa hora lamenta publicamente a perda da mulher que pode ter sido a mulher da sua vida. Enfim! Quando eu soube da morte de Whitney Houston, martelou-me a cabeça um de seus sucessos, que simboliza bem a vida e a morte da célebre cantora norte-americana. Afinal, para mulheres que falaram tanto de amor em suas músicas, a cantora Whitney Houston parecia em sua fama, ser uma mulher muito sozinha. Assim, tal como Whitney, não temos nada, se quem mais amamos fica longe de nós, e não temos mais a quem amar. Afinal:

Don't walk away from me
Don't you dare walk away from me
I have nothing, nothing, nothing
If I don't have you!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

EDUCAÇÃO: Onde os Especialistas não tem vez!

Participando de uma recente reunião docente na instituição de ensino onde leciono, fui informado pela coordenação do curso que os professores que tinham apenas o título de especialista não teriam turmas nesse semestre. A alegação da faculdade foi que as orientações do MEC para as instituições privadas de ensino superior no Brasil, este ano, seria a de que todo o corpo docente das instituições deveria ser formado por mestres e doutores; e que, além disso, tais professores só poderiam lecionar disciplinas que tivessem aderência; ou seja, fossem formados ou pós-graduados, especificamente para aquela área de conhecimento. Isso implica em dizer que um professor com mestrado em Direito Tributário, somente poderia lecionar a disciplina do mesmo nome, e nunca Direito Processual ou qualquer disciplina de Direito Público, enquanto que um profissional com pós-graduação em Direito Penal não poderia dar aula de Direito Constitucional e vice-versa.

Percebi a celeuma que tais medidas adotadas pela faculdade tiveram numa série de professores especialistas da casa (o que não é o meu caso); mas não deixei de me solidarizar com um corpo docente de professores jovens e esforçados, que foram responsáveis pelo erguimento do curso, nos primórdios da faculdade, e que agora estavam sendo colocados de lado, jogados ao escanteio, pelo fato de não terem uma pós-graduação strictu sensu. Percebi  que parte das demandas do Ministério da Educação tinha haver com a necessidade de se cobrar um maior empenho e qualidade acadêmica dos cursos jurídicos das instituições de ensino privadas, de nível superior. O que é louvável. Mas, percebi que, nas determinações do MEC, ao menos no que tange à aderência de discipllina, algumas injustiças ou mesmo impropriedades acadêmicas foram cometidas.


Para o filósofo Edgar Morin, esse papo de
"aderência" do Ministério da Educação,
na exigência de qualificação de professores,
é conversa fiada!
 Edgar Morin, pedagogo de fama mundial reconhecidíssima e filósofo da teoria da complexidade, diz que a multiplicidade de formações técnicas num diálogo entre conhecimentos faz com que haja uma pulverização das especializações, onde cada um tem que conhecer um pouco de cada coisa. Chama-se a isso de transdiciplinariedade, algo que vai se encontrar presente na pedagogia de Morin e que irá nortear as técnicas de ensino mais modernas. Desta forma, pela pedagogia transdiciplinar de Morin, o papel da escola é propiciar a comunicação entre as diversas áreas do saber, a fim de possibilitar a liberdade criativa que a ciência proporciona, com seu leque de possibilidades, e, desta forma, construir um conhecimento mais rico e diversificado, levando em conta as várias áreas do conhecimento estudadas conjuntamente. Nos termos apontados pela transdiciplinariedade, o propósito de "aderência" defendido pelos think tanks do MEC, não faria o menor sentido. Para que um profissional é obrigado a aderir a determinada área, ficando preso num âmbito de conhecimento, se  a ciência é multidisplinar e pode envolver várias formas de saber? Será que um professor especializado em Direito Econômico não poderia, por exemplo, dar aulas de Direito Penal, enfatizando na disciplina o conteúdo dos crimes econômicos? Ou será que um constitucionalista não poderia lecionar Direito Civil, se toda a legislação civilista encontra-se presa a dispositivos constitucionais?

Compreendo que deve ser cobrada a contrapartida das instituições privadas no tocante à excelência do ensino, tendo em vista a autorização do MEC para o seu funcionamento. Muitas faculdades e universidades privadas recentemente criadas ou desenvolvidas nas últimas duas décadas já lucraram muito e ganharam muito dinheiro. Afinal, está na hora dessas instituições mostrarem serviço e revelarem sua relevância pública, formando alunos bem formados. Entretanto, creio que isso não pode ser feito simplesmente demitindo-se professores especialistas, ao invés de lhes ser dada a oportunidade de capacitação, através de mestrados e doutorados incentivados pelas próprias instituições de ensino onde esses profissionais trabalham. Ter uma instituição de ensino bem avaliada, com uma grande produção técnico-científica, repleta de professores mestres e doutores, é o sonho de qualquer empreendedor educacional e reitor de universidade minimamente comprometido com a edução; mas o caminho até chegar a isso depende do aproveitamento e valorização do corpo docente que ainda é especialista, a fim de que esses profissionais do ensino obtenham a reconhecida e desejada titulação. Não creio que mandar jovens especialistas para o olho da rua contribua para o aprimoramento da educação de nível superior nacional, e, pelo contrário, acredito que isso possa gerar um coro de ressentimentos que faça com que muitos profissionais frustrados deixem de lecionar, apesar da vocação despertada em sala de aula, e, desgostosos, venham a desempenhar outras atividades. É uma pena! Quando comecei a lecionar ninguém me disse que para entrar numa sala eu tinha que concluir um mestrado ou doutorado primeiro, mas sim que precisavam de alguém que soubesse (e gostasse) de ensinar. Apesar disso, e para aqueles que entendem que ensinar é uma arte, mais do que uma profissão, não esmoreçam! O verdadeiro artista muitas vezes não tem sua arte reconhecida, mas acaba por criar belas obras, de qualquer forma, pois seu ofício de artista o obriga a criar. Traduzindo essas palavras: estudem e ensinem, meus caros professores especialistas, dediquem-se à profissão que escolheram e se pós-graduem, pois o reconhecimento profissional, mais cedo ou mais tarde, irá acontecer!

Parodiando o romance célebre de Cormac McCarthy , cuja versão cinematográfica rodada pelos irmãos Cohen ganhou até Oscar com o ator espanhol Javier Bardem, se o título inicial do livro No Country for Old Men fosse aplicado à realidade dos professores especialistas nas instituições de nível superior do país, eu diria que, no Brasil, para o Ministério da Educação: No Country for Specialists! What a Shame!

Revista Samuel - nº 1 - Livraria Última Instância

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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

TELEVISÃO: Parece que o BBB de Pedro Bial já foi longe demais, no Festival de Mediocridades que Assola a Nação!


Desde que surgiu, há mais de dez anos, o BBB
está aí, na televisão brasileira, para azucrinar a
paciência de muita gente.
 Confesso que gosto de ver televisão. Sobretudo no período da noite, quando chego cansado do trabalho, e fico interessado em pegar a resenha das informações do dia, vendo o noticiário da CNN ou da Globo News, ou então me divirto com os programas culturais e curiosidades que posso encontrar no Discovery Channel, no History, National Geographic ou no Travels Channel; pois este último tem sempre uma programação interessante sobre viagens, mostrando a cultura e a paisagem de países e lugares novos. Gosto também dos canais de música, de ver esportes, desenhos animados do Cartoon Network e filmes. E para a alegria dos vendedores de TV por Assinatura, sou também fã dos seriados (ou sitcoms) que proliferam nos diversos canais do gênero, como Fox, Warner, Sony, AXN ou Showtime Channel (destaque para Two and a Half Man e meu protesto sentido pela falta do Charlie Sheen!).


Sorry! Mas no mês de janeiro de cada ano, chega-me a dar
calafrios no que vou ver pela frente, na televisão nacional, com
a divulgação de mais uma edição do BBB. É a Rede Globo
apelando pela mediocritização nacional!
 Mas uma coisa que eu não suporto é a programação da TV aberta. Nem as novelas eu tolero mais; com exceção da novela O Astro, refilmagem da clássica obra de Janete Clair, que fez sucesso com Francisco Cuoco nos anos setenta, e que na sua versão 2011 teve um impagável Rodrigo Lombardi interpretando as peripércias do personagem Herculano Quintanilha, um típico herói de folhetim (que poderia ter uma série própria) que adorei. Mas, tirando isso, entre Faustões e Lucianas Gimenez da vida,  tirando o Jornal da Globo, da Band e o humoristico CQC, não consigo assistir a mais nada, pois acho tudo uma imensa porcaria. A pior delas é o BBB (Big Brother Brasil), liderado há mais de dez anos pelo (ex) jornalista e tentativa de apresentador Pedro Bial.


O FEBEAPÁ: um  clássico da literatura
nacional. Se estivesse vivo, provavelmente
Stanislaw Ponte Preta teria dificuldades
em listar tanta mediocridade encontrada
no BBB.


 Nos anos sessenta e setenta, o genial escritor Sérgio Porto utilizou o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta para publicar suas engraçadas crônicas nos jornais, e lançar em livro o seu antológico FEBEAPÁ: O Festival de Besteiras que Assola o País. Se Ponte Preta tinha o FEBEAPÁ, eu digo que Bial no Big Brother tem o seu FEBEMEARDÁ: Festival de Baixarias e Mediocridades que Assola a Realidade Diariamente no Ano. Eu pensava que já tinha visto tudo, em termos de imbecilidade na televisão (até porque, infelizmente, TV não é apenas um veículo de difusão de cultura, mas também é um espaço para o exercício das mais absurdas expressões humanas jamais vistas); mas, depois da última edição do BBB, acabou-se meu estoque de paciência diante de tanta mediocridade, estupidez e falta de respeito com o público. Demorei anos para escrever qualquer coisa sobre esse programa, já que muito já foi escrito (e esculachado) sobre ele. Resta aqui agora a minha indignada manifestação.

Semana passada, li o inteligente artigo escrito por Nirlando Beirão, na Revista Carta Capital (edição nº 680), intitulado: O império da indigência. Nele, até com uma certa compaixão pelo personagem, Beirão desanca Bial e sua trupe, denunciando a usina de mediocridades que se tornou o programa BBB, comandado pelo seu (outrora) consagrado apresentador-mor. Pelo tom da excelente matéria escrita por Beirão acerca de Bial, dá pra se perceber que aquele jovem, austero e bonito jornalista de olhos verdes, que além de réporter também era escritor e compositor (com direito à participação e classificação no longínquo MPB Shell do começo dos anos oitenta), que ficou conhecido por matérias jornalísticas históricas e reportagens sensacionais, como a narração da Queda do Muro de Berlim, em 1989, não mais existe. Aquele bom jornalista tornou-se agora um bobo da corte, um clown a serviço dos interesses das Organizações Globo, que nos tempos do patrão ainda vivo, esmerou-se em publicar uma biografia de qualidade duvidosa de Roberto Marinho, exaltando as enormes qualidades do falecido chefe; mas sem esboçar uma única linha de críticas ou fato desabonador da personalidade pesquisada. Bial passou a representar o jornalismo lacaio, que se submete de forma quase prostituída ao grande empregador, mesmo sendo a opinião pública sabedora do comprometimento de "doutor Roberto" com a ditadura militar e a sabotagem feita pela Rede Globo no último debate entre presidenciáveis, na primeira eleição para presidente em 1989, no histórico embate entre Lula e Collor, garantindo a vantagem para este último, para desgraça do país, na célebre piscada do globo azulado, fazendo "plin-plin".


Pedro Bial: ele já foi " o cara" algum dia, mas
agora, rendeu-se às vantagens do bom salário
para apresentar o "inapresentável", na sua
filosofia tico-tico no fubá do vale-tudo
na televisão nacional.
 Que pena que um ex-grande jornalista, leitor ávido de Guimarães Rosa e conhecedor de Roland Barthes, deixe de lado seu conhecimento universitário, para pôr no lugar versos de poesia chula e oportunista, através de seu sotaque carioca, de brasileiro criado nas praias fluminenses, para louvar não a expoentes da cultura nacional (como fazia em suas antigas entrevistas), mas sim para adular Analices, Ronaldos, Mayaras, Moniques, Yuris e Laísas. Tais criaturas são apresentadas por Bial aos olhos de seu criador (o agora triturado pelo mídia, José Bonifácio Sobrinho Jr.: o "Boninho") tirados pelo primeiro nome de agências de modelo, academias de musculação, festas de solterio, ou de books pornográficos para revistas masculinas.





Pessoas comuns, gente normal, representantes de nossa
"gloriosa juventude nacional"? A verdade é que, com o tempo,
o BBB não consegue mais se justificar pelos tipos rasos que
seleciona, propositadamente, recrutados muito mais pela
bela aparência. Só que cada vez mais fica dificil tentar encontrar
quem é o menos pior (retirado de blogs.pop.com.br)
 Como afirma em seu bem escrito artigo, Beirão considera que a propositada escolha esculachada dos tipinhos mais rasos e mais imbecilóides da sociedade nacional (dentre bíceps, pernas e bundas de fora), acabou por revelar saudáveis (e raras) exceções, como a feliz consagração de um, hoje deputado, Jean Willis, em uma das edições do programa, que não se conformou em fazer o papel da "bicha barraqueira", como é comum nos estereótipos trazidos pelo BBB, pois soube dar a volta por cima naquilo que poderia ser burlesco ( a reveleção de sua homossexualidade, ao vivo, perante as câmeras de televisão), revelando-se mais do que todos ali, um tipo interessante, um sujeito boa praça, centrado, intelectualizado e, sobretudo, esperto, e que diferente de seus desmiolados colegas de confinamento,  soube conquistar com astúcia e muito carisma o desejado prêmio de um milhão de reais. Porém, foram apenas Jean,  a suburbana e gordinha Cida, ou o cowboy Rodrigo, em outras edições do BBB, as raras exceções do programa, dentre um ex-vendedor de côcos, Kleber "Bam Bam" , musculoso e sem noção (que acabou virando capa de revista masculina), e um Dourado, que em sua homofobia e tatuagem de suástica, conseguiu aproveitar o lado negro do público brasileiro, que acabou por elegê-lo o vencedor do prêmio máximo, como o menos medíocre dos medíocres.


Tem certas coisas que ficam difíceis de explicar, ate para
o carismático apresentador do BBB (retirado de
humorpolítico.com.br)
  Por conta de um bom salário, Pedro Bial é capaz de manchar sua biografia, como um Fernando Henrique Cardoso que mandou que esquecessem tudo o que escreveu ( e que agora tenta recuperar sua imagem defendendo, oportunisticamente, a legalização da maconha), deixando para trás seu passado jornalístico para virar um apolegeta da vergonha nativa. Sim! Pois é vergonhoso o papel que Bial vem desempenhando na condução do Big Brother Brasil, como um maestro da ópera de horror da baixaria em rede nacional. Mas, mais vergonhoso ainda é um filho ser criticado publicamente pelo próprio pai, como ocorreu na crítica feita  pelo ex-todo poderoso Boni (pai de Boninho, responsável pelo BBB) ao seu fllho, organizador do programa, em recente reportagem publicada na revista Veja, acerca do descrédito nacional do público brasileiro sobre o BBB. A polêmica nacional se deu diante da suspeita de ter havido um estupro dentro do programa, entre o modelo Daniel (expulso do BBB depois do episódio) e a suposta vítima, a estudante Monique; enquanto esta se encontrava alcoolizada, depois de tantas festas e tentativas de suruba na "casa mais observada do Brasil"( como diz com forjada alegria, seu apresentador, Pedro Bial). Se o modelo afrodescendente passou dos limites, saindo do tom, fazendo mais do que deveria na alcova, após uma paquera mais ou menos entabulada com Monique durante a festa, e se aproveitou de sua semi-inconsciência debaixo dos edredons para violá-la sexualmente (se isso é possível); agora, somente a polícia civil carioca poderá averiguar, levando em conta que as baixarias e apelações do programa saíram dos canais de entretenimento para virar assunto das páginas policiais.


Pego com a "boca (ou será com o dedo?) na botija", só resta
ao modelo Daniel explicar o ocorrido no BBB com acusações
de racismo. Enquanto isso, dentro da casa do programa, a
polêmica rola solta (retirado de pipocamoderna.com.br)
 Dentre um Ratinho da Vida, um Programa do Gugu, as palhaçadas do Pânico na TV e a escória televisionada por um Wagner Montes ou Datena, parece que Pedro Bial e Boninho somam-se ao time dos maestros do freak show nacional, vendendo a alma ao diabo do patrocínio a todo custo. Tudo em prol da audiência. Se business is business, nem me dou ao trabalho de me juntar ao movimento iniciado na web, pedindo o boicote nacional à programação da Rede Globo, no atual dia 25 de janeiro, como forma de protesto contra a falta de ética na TV. Afinal, eu não assistia há décadas a programação da rede Globo (com exceção dos telejornais e O Astro) e só vi o Big Brother Brasil em poucas ocasiões, somente por acidente, dentro de um restaurante ou bar, ou no saguão de um aeroporto. Mas não se preocupem! Desta vez não serei mais vítima dos empregados das Organizações Roberto Marinho no âmbito da televisão brasileira, e não perderei meu tempo (nem neurônios), sequer orando para a figura caricata de um apresentador que só tem a nos legar peitos e bundas, encontráveis na esquina em qualquer revista erótica, dedicada ao público gay ou heterossexual. Se determinadas personalidades preferem deixar para a posteridade o currículo manchado por sua participação em atrocidades na TV, o problema é delas, e não meu. "Basta mudar o canal!", podem dizem muitos deles. Entretanto, quando vejo a sociedade brasileira sendo levada a picos de uma humilhação coletiva, mesmo sem assistir a tais baixarias, ainda me solidarizo com a patuléia chocada com o óbvio da estupidez (apesar do seu conservadorismo fajuto), e acho que até o mau gosto tem limite. Fora com o Big Brother Brasil! E fora com tanta gente que só tem veneno e porcaria para nos mostrar na televisão!! Sorry, Bial! Cansei!!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ECONOMIA: A Europa não é mais o que era antigamente, o problema é voltar a ser pior do que era.

Estamos acostumados, em nossa cultura, a usar o jargão: "cada um com seus problemas", e, assim, considerar que os problemas dos outros são somente dos outros e não nossos problemas também. Ao menos em relação ao que ocorre na Europa, isso se revela um ledo engano. Vivemos num mundo globalizado, e como num "efeito borboleta", o que acontece a milhares de milhas daqui, como o tsunami no Japão do ano passado,  provocando um risco de desastre nuclear em Fukushima, pode ter repercussões graves, no comércio de sapatos em Franca, no interior de São Paulo, por exemplo, ou na manutenção da produção de barris de petróleo no litoral do Bahia, no pólo de Camaçari. Tudo o que abala a economia de lá, acaba por ter repercussões diretas aqui, e um exemplo cabal disso é o recente expediente dos países ricos (ou ex-ricos?) de pedir dinheiro emprestado aos países emergentes, dentre eles o Brasil.

O Euro, a moeda única européia, está em crise; mas não é apenas a moeda, mas sim a Europa inteira. A reação em cadeia da economia capitalista, com suas crises sucessivas e a última grave derrocada
 dos países ricos, em função da decadência que passa a Grécia, e o consequente efeito dominó da crise, derrubando a economia dos países restantes, como Espanha, Portugal, Itália e França, anuncia um período de recessão, indefinição e muita insegurança para toda a comunidade européia. A incerteza quanto a sobrevivência do Euro pode significar a incerteza quanto à manutenção de uma Europa unida, depois de tantos séculos (ou até um milênio) de guerras, conflitos e disputas comerciais entre os diversos países da Europa, que outrora, tinham cada um sua moeda própria.

No início da Era Moderna, no conceito de Estado nacional, o princípio da soberania pressupunha a existência de um exército e moeda nacionais. Até a última década do século XX, acostumamo-nos nas aulas de história e geografia a descrever os países da Europa por suas moedas. Lembro-me bem quando era adolescente, que nas minhas aulas eu gostava de ler a edição anual do Almanaque Abril, onde eu memorizava a moeda de cada país, para diferenciá-lo dos outros. Assim, a Inglaterra tinha a sua libra esterlina, a Itália a lira, enquanto que na Alemanha a moeda nacional era o marco alemão, a França dispunha de seus francos, e na Espanha se usava a peseta. Por conta do vil metal, todas essas nações lutaram em guerra umas contra as outras, e foi preciso duas grandes guerras mundiais, que praticamente devastaram a Europa, para que os povos europeus, com suas diversas etnias e idiomas se sentassem juntos nas mesas de negociação, firmassem tratados internacionais, para que então, das ruínas surgisse uma nova entidade que representasse os interesses de uma Europa Unida. Nascia a União Européia, a partir do Tratado de Maastricht, em 1992, e dali nascia também a promessa de que os dias de conflito e destruição ficariam definitivamente para trás, enquanto uma nova Europa se via surgir.

Vi recentemente um comovente drama histórico chamado Feliz Natal (Joyeux Noel), com um elenco estelar de jovens astros do cinema europeu, de diversas nacionalidades. O filme conta os reais e inusitados episódios da confraternização entre soldados britânicos, franceses e alemães na I Guerra Mundial, no dia de Natal, quando os contendores saíam das trincheiras, largavam as armas, numa trégua firmada no front, e diante de um capelão rezavam, cantavam músicas de Natal, bebiam entre si e até jogavam bola, trocando fotografias dos familiares e confidenciando correspondências, como se a Guerra, naquele momento não existisse. O filme retrata fielmente uma Europa que até existia no começo do século passado, que não tinha uma moeda única. Uma Europa em guerra que contrastava com a Europa idealizada pelo filósofo Imanuel Kant, na sua obra A Paz Perpétua, escrita dois séculos antes, em que o filósofo pressagiava o surgimento de uma comunidade internacional, formada uma federação européia de nações, com o próposito de estatuir uma monarquia universal, com um governo e moeda únicos, mas que sabia respeitar a língua e as diversidades culturais de todos os povos que compunham aquela democrática comunidade de interesses. A União Européia nasceu como a concretização do ideal de Kant, e para que ela se mantenha, é fundamental que sua moeda permaneça forte, para unir povos que, outrora, eram inimigos e destruiam uns aos outros.

Se Marx ou Trotsky não conseguiram levar adiante o seu sonho de uma comunidade universal, dotada de uma mesma economia socialista, unindo as nações pela abolição dos meios de acumulação do capital, como defendia Trotsky na sua "Revolução Permanente", ao menos o capitalismo globalizado está tentando unir os diferentes por conta da economia. É cíclico que crises violentas do capital ocorram, como previu Karl Marx, mas também é previsível que o fracasso da moeda européia pode resultar na volta dos nacionalismos, e no retorno de um sentimento muito ruim na Europa, como o totalitarismo. Os novos velhos perigos que surgem para a Europa são o fortalecimento dos neofascismos, com a extrema direita italiana da Liga do Norte, os partidos de ideologia totalitária se desenvolvendo na Holanda e na Escandinávia, assim como o fortalecimento de discursos xenófobos de conteúdo racista, que agora culpam os imigrantes árabes e africanos (e não mais os judeus) como responsáveis pela crise, recessão e desemprego, que assola um em cada três cidadãos europeus em pleno colapso da economia em países como a Espanha e Portugal. Até a Grã-Bretanha foi chamada, e muito a contragosto da fleuma britânica de não querer se envolver nas confusões da Europa continental, o jovem primeiro-ministro conservador, David Cameron, foi obrigado a ir contra seu partido e seu próprio governo, na atual crise cambial, anunciando o apoio da Inglaterra ao pacto firmado pelos países da zona do Euro, como forma de manter a sobrevivência da moeda.

Pois é! Se nos meses que antecederam a Revolução Francesa, com uma economia européia em colapso, Maria Antonieta teve a audácia de sugerir que o povo faminto comesse brioches ao invés de pão, parece que no Palácio do Eliseu, um mais do que preocupado Sarkosy, aliado da Kayser teutônica Angela Merkel, vai ter que recorrer a sua badalada esposa, Carla Bruni, para lhe cantar uma de suas canções folk  ao violão, enquanto a economia da França parece desmoronar, como uma Roma em chamas diante de um Nero a tocar sua harpa. Talvez a cena fosse mais sugerida para Berlusconi na Itália, mas como o capo italiano já saiu de cena, pulverizado por uma dezena de processos de corrupção e abusos sexuais, resta ao povo europeu ver até onde vai dar a ópera bufa que se tornou a manutenção do Euro, e até onde o velho continente, surrado de guerras, vai suportar mais uma visita à lona, na perdição do capitalismo mundial. O mundo assiste aturdido ao desmoronamento da Europa.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

CULTURA: Tatuagem. Por que tatuagem??

De mudança pro novo apartamento, comecei a me mexer para revirar as quinquilharias, na árdua e infeliz tarefa de decidir o que manter e o que jogar fora de casa. Acreditem, meus amigos, na minha casa tem papel, mas muiiitoooo papel. Entre livros, revistas, gibis, posters, CDs, DVDs e agora Blu-Rays, também tenho a curiosa mania de colecionar........cartões de visita. Isso mesmo, existe todo tipo de colecionador, desde os colecionadores de selos aos colecionadores de cartões, e eu me encaixo no segundo grupo; pois revirando entre os cartões que mereciam ser jogados no lixo, deparei-me com um bonito cartão, da cor azul, com gravuras tribais em alto-relevo, que me lembrava um ateliê de tatuadores localizado em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. No verso do cartão tinha uma data e um horário: 20 de janeiro de 2010, uma quarta-feira, às 16:30 horas. Era o horário em que fiz a minha primeira tatuagem: um leão, desenhado no braço esquerdo, de aspecto tribal.


Personagens como Kat Von D tornaram
a tatuagem uma arte ainda mais popular.
 O curioso é que eu nunca tinha reparado na data em que fiz minha primeira tatuagem, até ter encontrado este cartão com o lembrete no verso, na mesma semana em que me preparo para fazer minha segunda tatuagem: agora no braço direito. Antes de decidir me tatuar pela primeira vez, refleti muito, passei meses pensando, e agora ao fazer uma nova tatuagem, mais uma vez, fico me perguntando até que ponto a arte de pintar o próprio corpo não exerce um fascínio quase irresístivel que, para alguns pode se tornar um vício, ou até mesmo uma doença. Analisando os prós e contras, de quem é a favor ou contra as tatuagens, podemos encontrar ínúmeros argumentos de cunho social, religioso, político, psicológico, antropológico e até filosófico. Tatuagens são uma produção humana, assim como são todos os bens culturais, mas os símbolos que são desenhados na pele por alguém ganham uma característica mística, que leva muito em conta a relação do homem com os símbolos, desenhos e cores. É importante sacar também, de como a tatuagem saiu das tribos primitivas, deixou de ser parte de um gueto social e se transformou efetivamente em arte, independente das belíssimas curvas do corpo todo tatuado da linda tatuadora, Kat Von D, em seu programa de TV semanal, L. A. Ink.

Historicamente, a tatuagem remonta à Pré-História, sendo encontrada há mais de 3.000 anos em gravuras de antigas cavernas e em desenhos de arte rupestre, demonstrando que, já naquela época, os homens cobriam a pele com desenhos. Uma das principais características da tatuagem que não mudou até hoje foi o emprego de agulhas com tinta para perfurar a pele, e assim deixar marcados definitivamente no corpo da pessoa, os traços de desenhos e símbolos representados pela tatuagem. No Egito foram encontradas múmias, datadas de 2.400 anos, que possuíam vestígios de terem sido tatuadas nos ombros e abdome, com a imagem de animais ou criaturas mitológicas. Na Roma antiga, os cidadãos romanos diferenciavam-se de plebeus e escravos através das tatuagens, assim como os membros do exército, integrantes da Legião Romana, tinham tatuado no braço o símbolo do senado romano, identificando-os como soldados.


As tatuagens são quase que obrigatórias
entre integranes da Yakuza.
 Todos os períodos da história humana foram acompanhados de gente tatuada. Os guerreiros pictos, povos bárbaros, inimigos dos romanos, tatuavam o corpo por acreditar que as imagens lhes traziam força e equilíbrio para combater os inimigos, e seria mais fácil serem reconhecidos no além, através dos desenhos que carregavam no corpo, pois acreditavam que as gravuras eram gravadas na alma, e não apenas na pele de quem era tatuado. Entre os habitantes de Samoa, para os samoanos a arte de pintar o corpo significava a passagem da infância para a vida adulta, simbolizando um certo status social dentro do grupo, enquanto que em diversas ilhas, os nativos da Polinésia, Indonésia, Nova Zelândia e Filipinas, também traziam tatuagens tribais gravadas no corpo. Tornaram-se famosas as tatuagens dos maoris, habitantes da Oceania, cuja beleza dos traços tribais de suas tatuagens são reproduzidas hoje no mundo inteiro. Também na Europa, durante a Alta Idade Média, celtas e vikings tinham suas próprias tatuagens, diferenciando-se entre si as gravuras empregadas por dinamarqueses, normandos e saxões. No Novo Mundo, os colonizadores encontraram diversas tribos indígenas, tanto na América do Sul, quanto na América do Norte, que usavam tatuagens, em sua maioria associadas aos deuses, com reprodução de animais que simbolizavam eventos sobrenaturais que marcavam a fé anímica desses povos.


Na era moderna, as tatuagens eram populares,
inicialmente entre os marinheiros.
 Durante muito tempo, no decorrer dos últimos séculos, no ocidente,  nos ambientes urbanos, a tatuagem foi associada a um estilo de vida marginal, muito mais relacionado a guetos específicos da sociedade, como presidiários ou marinheiros. No Japão, por exemplo, com o fim da era dos samurais e a modernização do arquipélago japonês, surgiu o crime organizado, e com ele a máfia japonesa, conhecida como Yakuza, caracterizada por seus integrantes tatuados. A máfia russa é caracterizada em sua escala hierárquica pela quantidade de tatuagens que um integrante possui, para subir na organização. Com a popularização da tatuagem a partir da contracultura norte-americana, nos anos sessenta, a arte de desenhar o próprio corpo acabou adquirindo cada vez mais adeptos, popularizando-se na comunidade de surfistas a partir dessa época até hoje, surgindo grandes estúdios de tatuagem e muitos tatuadores ficaram famosos por seu estilo, tornando-se verdadeiros astros pop. Nos Estados Unidos, a partir dos anos setenta do século passado, multiplicaram-se os estúdios para a difusão da arte, com a proliferação de pessoas tatuadas que queriam marcar no corpo a imagem de seus ídolos, com referências à estrelas pop como James Dean, Marilyn Monroe e Jimmy Hendrix. Na década de oitenta, tornou-se lugar comum as tatuagens de animais, dentre eles o tigre e águia, levando em conta o início da globalização e o contato com outras culturas, especialmente com a tradição oriental, relativa ao horóscopo chinês e às divindades do taoísmo e do hinduísmo.


Durante um bom tempo as tatuagens em
mulheres eram consideradas um tabu, no
começo do século passado, até se populariza-
rem de uma forma que, hoje em dia
é mais difícil encontrar
uma mulher não tatuada na praia do que
o contrário. 
 Biblicamente falando, ainda existe uma certa controvérsia no meio religioso (principalmente nos ambientes mais conservadores) acerca da possibilidade de um cristão ou crente de alguma religião, poder ser tatuado. Intérpretes das escrituras e alguns estudiosos consideram a prática proibida em virtude das lições contidas no Antigo Testamento, especialmente em Levítico 19:29 ( “Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o Senhor”). Porém, pelo fato de não haver expressamente nenhuma proibição da prática no Novo Testamento, alguns teólogos com visão mais crítica tendem a levar em consideração o caráter histórico do texto bíblico nessas passagens, e identificar a aversão do povo de Israel às tatuagens, pela sua identificação com povos que, na época, eram seus inimigos, como os filisteus, que andavam tatuados.


Tatuagem tradicional samoana, com sua
riqueza de detalhes.
Alguns segmentos mais radicais das igrejas pentecostais chegam a identificar a tatuagem com símbolos do demônio, enquanto que outros simplesmente repugnam a presença de pessoas tatuadas dentro de cultos ou missas ou chegam a destituir fiéis que são descobertos com tatuagens, de cargos honoríficos na igreja. Muitos esquecem, que nas primeiras décadas da igreja cristã, na época da perseguição dos romanos, muitos cristãos se faziam identificar uns aos outros mediante símbolos tatuados no corpo, carregando na pele as letras IHS (Iesus Hominibus Salvatorem), que representavam, tais como sinais identificados com a cruz ou com o peixe, símbolos da fé cristã (o significado traduzido da sigla é "Jesus, Salvador dos Homens"). Em 798 d.C. o papa Adriano I chegou a banir a prática das tatuagens, dizendo que aquilo que se tratava de coisa do demônio, e quem fosse encontrado e identificado com sinais de desenhos em tinta pintados na pela, deveria ser queimado na fogueira. Entretanto, durante as Cruzadas, há relatos de cavaleiros que tatuavam a cruz na pele, como forma de não serem obrigados a se converter à fè muçulmana, orando para Alá. Hoje em dia, é comum também encontrar igrejas neopentecostais, com pregações mais alternativas e includentes, permitindo a frequência nos cultos de fiéis tatuados e tendo até mesmo pastores que possuem tais gravuras estampadas no corpo, como na Igreja Bola de Neve.

Na II Guerra Mundial, nos campos de concentração nazistas, a  tatuagem tinha um significado mais infamante, no momento em que eram tatuados às força os judeus, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais que fossem feitos como prisioneiros, sendo que muitos dos sobreviventes daquela época mantém tatuada nos braços e punhos a numeração que era marcada em seus corpos, como forma de homenagear os mortos do holocausto e nunca deixar de esquecer, principalmente aos mais jovens, dos horrores que não podem mais voltar, com o surgimento do totalitarismo nazista.


Típica pin up tatuada, relevando o glamour de uma
arte antes tida como banida.
 Hoje em dia, a tatuagem praticamente foi assimilada socialmente. Lembro-me quando morava em Porto Alegre, cidade onde fiz minha primeira tatuagem, da quantidade de pessoas tatuadas que pude encontrar, pois antes de me tatuar eu andava pelas ruas, olhando curiosamente quem possuía tatuagem, percebendo que naquela época, no verão, era possível ver que de cada grupo de 4 pessoas que eu avistava, uma era tatuada. Eram homens e mulheres de diversas idades, estilos e etnias, que não tinham medo de mostrar desenhos no corpo, porque tais gravuras já faziam parte de sua identidade pessoal e cultural.

Identidade. Talvez, ao menos no meu caso, pessoas buscam se tatuar como forma de afirmar identidade ou para gravar no corpo momentos expressivos que passaram na vida. Quaando decidi me tatuar encontrei num sonho a figura de um leão, e a partir dali os sonhos foram identificadores de como e do quê eu queria me tatuar, guiando minhas opções, que, a meu ver, tem muito mais de influência do subsconciente, mas também de alguns aspectos de intervenção divina. Escolhi o leão, porque além de ser prosaicamente o animal correspondente ao meu signo, era uma figura que simbolizava força, determinação, bravura, mas também simbolizava a figura de Jesus, a partir da leitura de um escritor cristão reconhecido por sua obra, C.S. Lewis, que com suas Crônicas de Nárnia conseguiu colocar aspectos da fé cristã em sua obra literária antológica, colecionando milhões de leitores em todo mundo e gerando uma rentável e famosa franquia cinematográfica. O Leão Aslam de Lewis era a imagem simbólica que acabei por me interessar em tatuar no corpo, estilizado numa gravura tribal; pois, para quem leu a obra de Lewis, não se trata só de um Leão, mas sim de uma releitura do Leão de Judá que se encontra na Bíblia, personificado biblicamente na figura de Jesus.

Já o desenho da coruja, outro animal que também escolhi fazer, para marcar minha segunda tatuagem, simboliza para mim experiência, sabedoria, e, sobretudo, cautela a partir da observação, virtudes que passei a desenvolver com o decorrer da idade e que ainda venho aprimorando, com a chegada da maturidade. Sei que a opção de fazer uma tatuagem não é tão fácil, e só deve ser feita após muita reflexão e escolha adequada de um tatuador conhecido e respeitado por sua seriedade e higiene, para que depois eu não me arrependa amargamente depois. Afinal, por mais que existam, hoje, aparelhos desenvolvidos e caros para a retirada de tatuagens, o processo ainda é muito doloroso, não há garantia alguma de que a pessoa que se tatuou possa voltar atrás, apagando sua tatuagem e as marcas e manchas na pele permanecem para sempre, ou só podem ser removidas mediante uma cirurgia plástica. Tatuagem não deve ser vista como uma brincadeira ou modismo, e a pesoa tem que ter a completa consciência da alteração definitiva que poderá fazer em seu corpo. Sempre me tatuo com um misto de fascínio e medo, mas sei que, em minha fé, independente de como estiver meu corpo, para onde eu for depois de morrer, sei que terei um Deus que amo, que irá me receber da forma como eu me encontro, com meus pecados e virtudes, por acreditar que Ele está entre nós!

Portanto, por favor, peço aqueles que não gostam da tatuagem que não recrimem tanto por eu ser um homem tatuado; mas, se não concordam, que ao menos respeitem-me do jeito que sou, com minhas virtudes e defeitos, com meu corpo imperfeito, na perfeição de espírito que busco e sei que nunca alcancarei pela minha condição limitada de ser humano; mas um ser um que crê, que tem fé em Deus e acho que a salvação da alma só se encontra Nele, cabendo a Ele recriminar minhas escolhas e me criticar por ser tatuado, e mais ninguém. Afinal, como bom luterano tatuado, acredito que só a fé me justifica e me salva, e só através dela sei que poderá haver um céu tanto para tatuados, quanto para não tatuados. Tchau, gente! O ateliê do tatuador me espera!!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

SÓCRATES(1954-2011): Um Brasileiro!

Mais uma vez, aproveito o blog para escrever sobre obituários de gente famosa, mas de gente que, sempre de alguma forma, marcou minha trajetória de vida, como a de outras pessoas. Não sou corintiano, mas sou amante de futebol (e de muitas outras coisas, como meus bons amigos e leitores do blog bem sabem) e após um bocado de dias sem escrever (um mês, pra ser exato), decidi colocar na web minhas impressões sobre esse fantástico ex-jogador, articulista de jornais e revistas, militante político e personalidade  do esporte brasileiro, que agora se foi. Com vocês, minha homenagem ao Doutor Sócrates!!


(retirado de cafecomnoticias.blogspot.br)
 Sócrates  Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, já tinha no nome uma equipe de futebol de salão montada. Nascido em Belém do Pará, há 57 anos, Sócrates veio de uma Belém que eu conheci na minha infância, pois como filho de um militar, vivi com minha familia num conjunto residencial da Marinha, próximo ao aeroporto, no começo dos anos oitenta, época em que comecei a me encantar com a mágica seleção brasileira da Copa de 1982, na Espanha. Torneio que teria como um dos craques a figura do doutor, um Sócrates no auge do vigor físico, habilidade e da fama, que junto com Zico e Falcão formou uma das melhores equipes de futebol da seleção canarinho da história. Uma equipe campeã moral, que no final não levou nada, mas encantou o Brasil e o mundo com os passes mágicos desses craques eternos, e com o antológico passe de calcanhar, marca registrada de Sócrates, que com sua criatividade fez ou ajudou a fazer muitos gols. Pena que a Itália de Paolo Rossi nos fez chorar! Pena que uma seleção tão brilhante, de futebol tão bonito, não conseguiu emplacar e levar para casa o título mundial. Aquele tempo se foi, mas Sócrates ainda permanceu por muito tempo no imaginário popular e na vida cultural e política nacional, até falecer este mês por distúrbios de saúde associados ao alcoolismo (mazela de tantas craques, que já vitimou Garrincha no passado), e ter deixado uma legião de leitores, da revista Carta Capital, orfãos do seus textos (dentre eles, eu). Que pena que Sócrates foi embora tão cedo. Cedo, porque 57 anos não é nada para a eternidade, e não é nada para quem se eternizou no coração e no orgulho nacional, com a alegria de  quem brincava com a bola, fazendo a alegria da torcida nos seus tempos de jogador. Um tipo magro, alto, imenso, mas de pés tão pequeninos e um jeito tão desengoçado, que fazia tremer a zaga do time adversário, toda vez que se aproximava da grande área. Sócrates permanecerá eterno. O doutor sempre será eterno!!

Doutor da bola, doutor na vida. Já no final dos anos setenta, Sócrates era uma exceção à regra, diante de tantos jogadores oriundos de famílias pobres, de baixa escolaridade ou nenhuma instrução, que tinham aversão a uma sala de aula, ao ter uma dedicação ao esporte inversamente proporcional ao estudo. Sócrates era estudante universitário, quando começou a jogar no interior de São Paulo, no Botafogo de Ribeirão Preto, cidade onde sua família,egressa do Pará, viria a residir e se radicar, revezando os treinos no clube com as aulas de medicina, na faculdade de medicina local, pertencente a USP. A dedicação aos estudos era semelhante à dedicação ao futebol,e já despontando como um craque mais talentoso nos gramados, do que nas mesas de cirurgia, não demorou para que Sócrates ingressasse no time que o consagraria, tornando-se um dos ídolos eternos do Corintians Futebol Clube. Foi no Timão que Sócrates, acompanhado de seus companheiros Palhinha e Casagrande, revolucionaram o futebol brasileiro com a criação do movimento chamado Democracia Corintiana, onde os jogadores, organizados politicamente como se fossem um partido político, reuniam-se em assembleía, ditavam as regras para a direção do clube, tiravam ou escolhiam treinadores, encerraram as autoritárias "concentrações", onde os jogadores ficavam enclausurados, impedidos de sair dos treinos, e definiam até horários dos jogos e treinamentos, numa forma de mobilização que lembrava a ebulição política da época, com a ocupação de praças e ruas, pelos movimentos sociais, exigindo o fim da ditadura e a realização de eleições diretas para presidente.


(retirado de abril.veja.com.br)
 Foi no movimento das Diretas-Já, que Sócrates mais se notabilizou como cidadão e ator político, e não apenas como jogador. Filiado ao PT, partido com quem sempre se identificou, e ídolo de Lula, então sindicalista, fundador do partido e futuro presidente da república (um corintiano fanático), o famoso jogador fez história com seu emocionado discurso no comício das  Diretas, dizendo em alto e bom som que se a Emenda Dante de Oliveira, que previa eleição diretas para presidente da república, em 1984, fosse aprovada, ele não iria mais para o exterior, saindo do Brasil a convite de um clube italiano, uma vez que queria permanecer para ajudar a reconstruir a democracia no país. Que pena que as coisas deram errado. A emenda não passou e o Brasil teve que esperar mais um ano pelo fim da ditadura, com a eleição de Tancredo Neves para o colégio eleitoral, e, nesse ínterim, um experimentado Sócrates tentaria a sorte na Europa, defendendo, por um  curto tempo, a camisa da Fiorentina, para depois retornar ao Brasil e ainda jogar pelo Flamengo, pelo Santos, até encerrar  a carreira no mesmo Botafogo de Ribeirão Preto, onde começou a dar os primeiros chutes, em sua histórica trajetória futebolística. Sócrates ainda jogou a Copa de 1986, no México, onde mais uma vez sentimos o gosto da decepção, ao perder para a França (Ahh! A França, sempre a França!), na disputa de pênaltis, nas quartas de final do Mundial.  Naquela época, um Sócrates contundido, exausto, mais ainda talentoso, viu se perderem as chances do Brasil conquistar mais um titulo, ao perder um pênalti decisivo, que levaria à seleção canarinho para as semifinais. Mas é de alegria e tristeza que se vive o futebol. É de momentos de glória e também de profunda dor que se forja um torcedor. Senão, não teria graça o futebol, não é mesmo?!


(retirado de webnode.com.br)
 Nos últimos anos, além de trabalhar como técnico de futebol, Sócrates se valeu de sua persona pública para trabalhar em projetos sociais, participar de eventos políticos (com direito até a elogios ao presidente venezuelano Hugo Chavez) e a escrever artigos na imprensa nacional, principalmente na revista Carta Capital, donde se tornou articulista, revelando um senso crítico que nunca o abandonou, além das garrafas de cerveja, cigarros e samba que sempre o acompanharam; pois afinal, acima de tudo, Sócrates era um brasileiro!



(retirado de vocedeolhoemtudo.com.br)
 Brasileiro de origem humilde, desapegado dos bens materiais e mais adepto de uma boa conversa de mesa de bar, entre comentários críticos à política e o futebol, do que frequentar os grandes salões do jetset do capitalismo da bola. Além de jogador, eu estimava o Sócrates que se fez enquanto pessoa, angariando mais amigos do que desafetos, apesar do seu jeito às vezes turrão de dizer as coisas "na lata" para seus interlocutores, sem se preocupar com eufemismos. Sócrates poderia se tornar uma fera para jornalistas, como também poderia ser uma doçura de afeto, reconhecendo com mansidão na imprensa nacional os seus vícios e o alcoolismo que acabou levando-o à morte. Desde o começo do ano, com suas idas e vindas ao hospital, Sócrates despertou a comoção pública e o afeto indivisível de todo o país, calando até mesmo seus antagonistas na CBF, irritados com a forma sempre crítica com que Sócrates denunciava a cartolagem no futebol. Afinal, Sócrates era um ícone, não um "zé-mané" pago a preço de ouro para ficar calado, ou promover cartolas investigados pela Justiça, acusados de corrupção. O drama de Sócrates serviu para denunciar os riscos do consumo excessivo de álcool, mas também serviu para demonstrar que uma pessoa vale pelas opções que adere e pelas suas escolhas. E Sócrates escolheu viver da forma como queria, sendo brasileiramente um cara simples, com todas suas qualidades e defeitos, tomando sua cervejinha no final do dia, na esperada mesa de bar. Por seu passado de atleta, Sócrates não teve como vilão doenças de coração ou de pulmão,  males que afetam os beberrões e fumantes, mas sim  uma doença do fígado, castigado por tantos anos de excesso e de birita. Na sua última refeição, o doutor passou mal, e antes que fizesse seu último diagnóstico, foi direto para o hospital, não mais voltando de lá vivo, mas escrevendo sua página na história, e nos corações de todos os torcedores de futebol.


(retirado de esporteuol.com.br)
 Sócrates simbolizava um tipo de futebol arte e um estilo de atleta ético, engajado políticamente que marcou época, mas que será muito difícil de encontrar nos dias de hoje, devido à mercantilização do futebol e uma indústria de fabricação de craques, que hoje transforma ex-atletas em homens de negócio (vide o que aconteceu com Ronaldo). Nada contra, mas também nada a favor, para quem tem um pensamento minimamente crítico, como tinha Sócrates. De qualquer forma, Sócrates deixa uma lacuna, mas também deixa uma lição de vida e ser humano na história do futebol e da política nacional. Definitivamente, é alguém que vai deixar saudade! Adeus, Sócrates!

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?