quarta-feira, 20 de abril de 2016

POLÍTICA: O DIA EM QUE TODOS FOMOS FEITOS DE PALHAÇOS (OU, O VOTO DO TIRIRICA NO IMPEACHMENT DA PRESIDENTE)

Francisco Everardo Oliveira Silva, artista, político, compositor e humorista cearense, exerceu em um domingo, o dia 17 de abril de 2016, o papel que mais o celebrizou nacionalmente. Na votação na Câmara dos Deputados que autorizava o Congresso brasileiro a instaurar um processo de impeachment contra a Presidente da República, Dilma Roussef, Francisco Everardo preferiu votar como o Palhaço Tiririca. Ele não precisou usar as vestes coloridas que o notabilizaram na televisão ou em sua campanha para ser eleito deputado federal, ou o indefectível chapéu loiro e boné que caracterizam o seu personagem; mas, de cara limpa, paletó e gravata, não deixou de exercer um papel executado com maestria por, ao menos, um terço dos parlamentares que se encontravam diante do polêmico, conservador e fleumático Presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (réu em processo criminal por corrupção e outros crimes). Ao dizer "sim" ao afastamento de uma presidente democraticamente eleita, Tiririca apenas demonstrou ser o bobo de uma corte de palhaços, que disfarçados de legisladores, desempenharam um papel horrendo, numa ópera bufa que mais parecia um filme trash de terror.

Foram tantos apelos à família, à ética, ao Juiz Sérgio Moro (responsável pela "Operação Lavajato", polêmica ação policial e judicial que resultou na prisão de vários empresários poderosos e instauração de processos contra uma série de políticos de partidos que apoiavam a Presidente Roussef), xingamentos contra adversários e até uma homenagem a um falecido coronel do exército, responsável por montar um centro de torturas na ditadura militar (obra do reaçonário deputado de extrema-direita, Jair Bolsonaro), que a votação parlamentar de domingo pareceu uma espécie de freakshow da política nacional.  Para muitos, que assistiram a votação que culminou nos 342 votos necessários para instaurar o processo de afastamento da presidente, mesmo para os que apoiavam um golpe legislativo travestido de processo legal, parece que a lição foi dura, quando milhões de brasileiros puderam observar, por 30 segundos a cada voto, a olho nu e despidos de qualquer assessoria de marketing ou maquiagem, diversos homens e mulheres, eleitos para a Câmara Federal na função de representar o povo, sendo, simplesmente, eles mesmos: uma expressão do eleitorado que os elegeu.

Agora, sabemos que parte do eleitorado que compõe a nação brasileira é conservador, homofóbico, machista, autoritário, hipócrita, fundamentalista religioso, oligarca, clientelista, ufanista, xenófobo, com forte preconceito de classe, semialfabetizado, ou mesmo ignorante em muitos assuntos e temas. O episódio da votação de Tiririca apenas expôs como, um artista popular de humor rasteiro, idiotizado, e de qualidade duvidosa, que durante anos assombrou os adoradores do bom senso, em programas de TV em rede nacional, conseguiu chegar a um dos mais proeminentes postos do poder, chegando ao status de legislador, ao ganhar uma vaga de deputado no Parlamento brasileiro. Tal proeza foi conquistada pelo mesmo processo democrático defendido por democratas genuínos, revolucionários, humanistas, militantes políticos e sociais perseguidos pela ditadura, intelectuais e artistas engajados, religiosos comprometidos com causas sociais e toda a esfera de pensadores, juristas, profissionais liberais, sindicalistas e estudantes, que, trinta anos antes, estavam nas ruas clamando pelo fim de uma ditadura de 20 anos, por eleições diretas para presidente e por uma nova carta constitucional que resultou numa Assembleia Nacional Constituinte, e a promulgação da vigente Constituição de 1988. Se a luta dos movimentos sociais e partidos encampados por pessoas tão interessantes nos trouxe um país melhor e mais democrático, por que Tiririca e seu voto, junto com o de uma maioria oportunista ou equivocada comprometeu a própria democracia que eles, parlamentares, juraram tanto defender? O que deu errado?

Importante salientar de onde veio Tiririca e de onde partiu seu eleitorado, para compreender que, em 14 anos de lulo-petismo, os sucessivos governos democráticos e de esquerda, do ex-operário Luiz Inácio Lula da Silva e da ex-guerrilheira, Dilma Roussef, foram incapazes de propor autênticas reformas institucionais no país, que não passassem apenas por políticas graduais de inclusão social na economia. Consciências não foram modificadas, apesar dos bolsos sim. Aproveitando-se de momentos bem sucedidos no mercado internacional (com a crise da economia norte-americana e o crescimento do mercado chinês), países da América Latina como Brasil e Argentina esperavam lograr êxito com uma expansão dos commodities (principais matérias primas brasileiras) no comércio global e uma balança comercial provisoriamente favorável, esquecendo-se que reformas intensas teriam que ser feitas, principalmente para os menos favorecidos, estabelecendo-se uma verdadeira ruptura institucional com os mais ricos. Como os personagens do clássico filme Metrópolis, de Fritz Lang, Lula esperava, que com seu alto grau de carisma e articulação política, conseguiria conciliar para sempre os interesses do capital e do trabalho, numa aliança entre patrões e empregados que levasse a um país de brasileiros "que não desistiam nunca". 

Ao contrário disso, a fonte secou. Eleitores do deputado Tiririca são muitos daqueles beneficiados pelo boom econômico dos primeiros anos do século, que saíram da pobreza extrema, auxiliados por programas assistenciais, em sua maioria analfabetos, que conseguiram prover os filhos de certo grau de instrução, e, em alguns casos, chegaram a condição de formar uma nascente classe média baixa, que conseguiu até mesmo colocar os filhos na universidade, no mercado de trabalho e ter acesso a uma gama de bens de consumo, graças à flexibilização dos juros. Lula e Dilma fizeram em pouco tempo um exército de novos consumidores para o capital, mas não "novos ricos", numa estrutura frágil que poderia se romper (como se rompeu), na primeira grande crise econômica que o país passou a contrair. 

Hoje, eleitores de Tiririca sequer sabem o que é FIES (que pode ser confundida com a palavra "festa", regada a forró, funk ou as músicas sexistas e de conteúdo racista que Tiririca tanto expôs nas rádios e programas de televisão). O jargão prolixo, intrincado e aborrecido dos economistas foi incapaz de ser transmitido ao povão, através dos arautos do governo que cai, fazendo com que milhões aplaudissem a iniciativa midiática de um juiz autoritário e senhor de si, valendo-se de uma Polícia Federal composta por vários autoridades e agentes opositores do governo e comprometidos com uma ideologia de lei e ordem avessa ao garantismo constitucional, que passaram a tratar apoiadores do governo e seus representantes não como investigados ou réus, mas como culpados por todo tipo de corrupção que assolasse a República (e destruísse a empresa estatal mais bem sucedida do país, a petrolífera Petrobrás). 

O que dói mais talvez não seja o voto de Tiririca no Congresso Nacional, mas sim a forma como, dias depois, caçoou da nação, num momento de descontração captado por uma câmera de celular, que ganhou as redes sociais e o conhecimento público. No vídeo, o deputado bissexto e artista full time faz uma brincadeira com as homenagens que os deputados mais exaltados fizeram em seus votos. Daria até para rir, se não fosse motivo para chorar!! Ao escarnecer de sua própria função pública, e comprometer a importância do mandato parlamentar, Tiririca prestou um verdadeiro desserviço a todos que o achavam ao menos engraçado. Ao dizer que, ao expulsar Dilma do Palácio do Planalto, votando "sim", o deputado diz que votou "pelo coração", é o meu coração e o de muitos democratas que dói ao ver tanta inconsequência e alienação. Nunca estivemos tão mal representados. Ao compor um Poder Legislativo dos mais conservadores desde o golpe de 1964, o deputado Francisco Everardo demonstra porque, na primeira vez em que falou num microfone na Câmara, que na verdade estava ali o bom e velho Tiririca, a zombar com humor de tudo, até mesmo da própria República. Ali, expressando seu "sim" na Câmara dos Deputados, Tiririca demonstrou que, de político, ele não passa de um bom palhaço (ou seriam os dois conceitos a mesma coisa?).

terça-feira, 15 de março de 2016

SAÚDE E MÚSICA: A surdez de Brian Johnson do AC/DC e de como devemos cuidar de nossos ouvidos!!

Desde que eu comprei meu primeiro aparelho de som, com o dinheiro do primeiro emprego, eu ouvia som alto. Adorava me trancar no meu quarto e ouvir o som dos preferidos discos de rock a todo volume. Para desespero de meus pais que viviam na mesma casa, eu era um jovem de 20 anos de idade, no começo dos anos noventa, que gostava de música barulhenta, deixando estourar as caixas de som escutando os discos de bandas de  hard rock ou heavy metal como Metallica, Iron Maiden e, principalmente, AC/DC.

Passados vinte e cinco anos, eis que sou surpreendido com a notícia divulgada nos meios de comunicação que o AC/DC cancelou parte dos shows de sua turnê de 2016, por conta da perda de audição do seu vocalista, o cantor Brian Johnson. Segundo os médicos, se Brian continuasse a se apresentar ininterruptamente com sua banda em apresentações pelo mundo afora, a tendência é de que ele ficasse completamente surdo até o final do ano. Quem é fã de rock de verdade, e acompanhou grandes grupos de antigamente, desde o comecinho dos anos oitenta e final dos setenta do século passado, naturalmente associava a famosa banda australiana não só com seu carismático guitarrista, Angus Young, mas também com seu vocalista, com seu indefectível boné de caminhoneiro. Pois é, quem soube que o cara estava ficando surdo, não deixou de ficar triste e chocado. Brian passou os últimos 36 anos de sua extensa e barulhenta vida cantando com o AC/DC e vê-lo fora dos palcos é realmente lamentável.

A história de Brian Jonhson, sua dedicação ao rock'n roll e a forma como está perdendo a audição, não deixa de se identificar com a minha. Há mais ou menos um ano, quase dois meses antes de nascer o meu filho, fui diagnosticado com perda auditiva. O sintoma que em mim decorreu afeta diariamente muitas pessoas que trabalham com som alto (principalmente músicos), e é chamado na medicina de tinnitus. Trata-se de um zumbido característico, com sons diversificados, dependendo de cada um que tenha o problema, que só a pessoa consegue escutar. Pode vir sob diversas formas, sob a forma de um chiado como uma panela de pressão ou um antigo televisor fora de  sintonia, ou mesmo se assemelhar a um tambor ou canto de uma cigarra. Isso se deve pelo fato de que uma parte das células auditivas já não responde mais ao estímulo externo, e para compensar o ouvido fabrica sons próprios para suprir o espaço vazio deixado por alguns sons que não são mais percebidos no ambiente, fazendo com que o cérebro leia isso como um zumbido.

Em casos avançados, com a falta do tratamento devido e com o passar dos anos, o zumbido pode tomar o lugar da audição por completo, até o indivíduo ficar totalmente surdo. Um dos casos mais célebres, é do guitarrista Pete Towshend, da icônica banda de rock, The Who. Segundo Towshend, ele sofria do problema desde os trinta anos, mas só foi ligar pra valer nos anos mais recentes, quando viu que sua saúde auditiva estava realmente prejudicada, chegando ao ponto de ele só ensaiar os sons de sua guitarra, se estiver bem próximo do amplificador. Recentemente, o ex-guitarrista do Oasis e atual líder do Hying Flying Birds, o britânico Noel Gallagher, também declarou a imprensa que padece do mesmo problema. No meu caso, os primeiros meses foram dramáticos, e tive que me acostumar com uma nova medicação para aliviar algo que permanecerá no meu ouvido até o final de minha vida, além de ter de usar esporadicamente aparelho para surdez. É chato, mas nunca tão terrível como perder a audição definitivamente, como se deu com compositores da estirpe de Ludwig Beethoven; mas é suficientemente desagradável para você poder rever o tempo que passou estragando sua audição, maltratando seus ouvidos, ouvindo som no volume máximo, seja dentro de casa, usando um fone de ouvido, escutando música dentro do carro, ao lado de potentes caixas de som durante shows de rock, ou até mesmo frequentando diariamente uma barulhenta sala de aula.

Brian Johson já está com 68 anos e, praticamente demitido do AC/DC, não se sabe se ele buscará a justa aposentadoria ou ainda se envolverá em outras aventuras sonoras, cantando altos rocks com seu falsete inesquecível. Sei que sentirei falta de um cantor como ele nos palcos, mas sentiria muito mais a falta de qualquer coisa se eu não pudesse simplesmente mais escutar. Que minha mensagem sirva de alento para quem sofre do mesmo problema, mas que lhe traga também esperança e tranquilidade, pois, ao me tornar "amigo do silêncio", convivendo relaxadamente com minha perda auditiva, fui me descobrindo uma pessoa melhor, chegando a ignorar por completo alguns ruídos estranhos que aparecem de vez em quando no meu ouvido, principalmente porque reaprendi a escutar. Isso mesmo, pra quem gosta de som alto, e não perde de jeito nenhum assistir a um show do Metallica, do Ozzy ou do Ramstein no mais alto e bom som, não custa nada levar um protetor auricular, caso você não queira realmente se afastar do palco, pra proteger os ouvidos. Trata-se de uma autêntica reeducação sonora. Agora, pensando melhor, creio que custa, sim, muito caro, ir para um show desses com as orelhas desprotegidas ou escutar som no seu fone, sem adotar as devidas precauções. Trata-se  do custo de sua audição ficar definitivamente comprometida, como agora comprometeu tristemente nosso querido Brian Johnson. Que isso sirva de lição,  a todos nós, e que o som não deixe de rolar nas caixas por conta disso! Boa sorte, Brian!!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

MORREU DAVID BOWIE (ou melhor, Ziggy Stardust retornou ao seu planeta)

Mal estava eu lamentando na semana anterior o falecimento de Lemmy Kilmister, da cultuada banda Motorhead, eis que mais um personagem símbolo do rock do século XX bateu as botas!! Morreu David Bowie. Reservado em sua vida pessoal e distante (como se fosse possível) dos holofotes durante um bom período (ele passou quase dez anos sem gravar um disco, até o lançamento de Next Day, em 2013), Bowie morreu domingo (dia 10 de janeiro), após ter completado recentemente 69 anos, no dia em que meu filho fez exatamente nove meses de idade. Segundo o que foi divulgado oficialmente, ele lutava contra um câncer há pelo menos 18 meses, e acompanhado de seus entes queridos, faleceu em casa, contando apenas com a presença de seus familiares. Ainda luto para acreditar, apesar de saber o quão mortais são as pessoas, mesmo que sejam seus ídolos musicais da juventude.

Alguns ignorantes não sabem da força de um ídolo. Não se trata de se emocionar por alguém que sequer você conheceu pessoalmente, ou de se valer de idolatria. Nada disso!! Quando chorei a morte de outros grandes artistas, como Freddie Mercury, Renato Russo, Cássia Eller e George Harrison, chorei não por ser parente ou amigo pessoal, mas sim pelo triste fato de saber que pessoas tão talentosas não estarão mais vivas para cantar e tocar as canções tão bonitas que fizeram minha geração. David Bowie, assim como outros grandes artistas que ainda estão aqui ou que já partiram, representam uma juventude que não retorna mais, de um tempo que não volta mais, e que ficará para os mais jovens datado apenas nos livros de história. 

Recordo da primeira vez que vi David Bowie, nos anos oitenta, na minha adolescência em Brasília, quando Let's Dance explodiu nas paradas de sucesso, com música tocada em exaustão nas rádios e clipe divulgado na TV. Na época não havia internet e nem celular, e a divulgação dos artistas de fora era feita toda pela mídia descrita acima.  Além das descobertas que fiz, perambulando entre prateleiras de discos de vinil, nas lojas de música,  observei que o Bowie da minha juventude, era então o Bowie da década de 1980, com a febre da New Wave, a participação do cantor nos filmes Labirinto e Furyo-em nome da honra. Quando eu vi  David Bowie, em sua primeira aparição, logo me deparei com a androginia tão associada ao cantor nos anos 1970. Com aquele cabelo loiro oxigenado, mas o visual frágil e ao mesmo tempo elegante, eu me indagava se quem estava cantando, com aquela voz grossa de intenso barítono, era  realmente um homem ou uma mulher, tamanho o impacto de sua figura. Vieram outros clipes que também fizeram a minha cabeça, como China Girl, Absolute Begginers e Modern Love, além de Dancing on the Street, onde pela primeira vez vi Bowie cantando em parceria com Mick Jagger, dos Rolling Stones (na parceira que iria fomentar durante anos a fofoca da suposta "ficada" sexual entre os dois). Foi com essas músicas e clipes que, à medida que fui crescendo, fui tomando conhecimento e admiração pela obra de um artista tão performático. Bowie também representava para mim a associação com outro ídolo, Freddie Mercury, do Queen, no famoso dueto em que ambos esbanjam graça vocal, na clássica canção Under Pressure, até hoje tocada à exaustão nas rádios, festas e pubs do mundo inteiro. Sobre essa última música, cabe aqui o belíssimo registro da parceria de Bowie com a cantora Annie Lenox, do Eurithmics, cantando essa linda canção em homenagem ao vocalista do Queen, após sua morte por Aids, em 1991, num clássico show tributo em Wembley.

Mas foi nos anos noventa, já um jovem adulto e universitário, que me elevei da condição de curioso para a de fã, ao escutar as músicas de David Bowie. A década tinha passado com a reviravolta musical rockeira do grunge de bandas como Nirvana, Alice and Chains e Soundgarden, e com a MTV ainda bombando e com seu sinal de televisão propagado por todo o Brasil, pude assistir a mais clipes e ao lançamento de novos discos de Bowie. O loirão tinha se voltado agora para uma pegada mais techno, antecipando-se ao caminho da música eletrônica, que outros artistas do rock vieram a aderir, como o U2, no célebre disco Pop; mas menos no avanço tecnológico de sua fase digital  e mais em seu passado no glamrock, é que eu passei a admirar ainda mais David Bowie.

Ainda no cinema, eu não poderia me esquecer da atuação de David como ator  no cult movie, Fome de Viver, com Catherine Deneuve e Susan Sarandon, com direito a trilha sonora da banda de rock gótico Bauhaus. Bowie interpretava o marido vampiro da protagonista, papel exercido por madame Deneuve, num filme de terror erótico dirigido pelo cineasta Tony Scott, extremamente classudo.Mais recentemente, nos últimos anos, Bowie pôde ser visto mais envelhecido, interpretando um personagem real, o inventor Nikolai Tesla, no filme O Grande Truque, estrelado por dois dos grandes e ótimos atores dos últimos anos, Hugh Jackman e Cristian Bale.



Agora, um marco cinematográfico ajuda a explicar essa minha admiração por Bowie, principalmente para quem gosta do (bom) cinema. Em 1998 assisti ao filme Velvet Goldmine, do diretor Todd Haynes e estrelado pelos atores Jonathan Rhys Meyers, Christian Bale  e Ewan MgGregor. Trata-se de uma cinebiografia não autorizada de Bowie, e no filme, não obstante o músico não ter autorizado qualquer canção para a película, é possível ver o quanto o astro era magnético na sua dupla persona de cantor andrógino e space boy. O filme me despertou a curiosidade para conhecer os discos mais saudados dele pela crítica, nos anos setenta, e através deles eu pude conhecer obras que escuto e cantarolo até hoje, como Life on Mars, Alladin Sane, Starman,e, principalmente, obras-primas como Space Oddity e Ziggy Stardust. Eu, fã de filmes de ficção científica, vi-me aproximando-se mais e mais do som de David Bowie por conta de seu alterego estelar, nos palcos e shows dos anos 1970, quando Bowie subia aos palcos fantasiado de Ziggy, um alienígena que tinha chegado a Terra, e, desolado com as guerras e conflitos inexplicáveis da época, decidiu montar uma banda e tocar sua guitarra. Ziggy Stardust era a mais plena expressão da minha genuína alegria nerd, numa fase juvenil em que eu já me empolgava com Star Wars e filmes como ET-o Extraterrestre. Vi em suas performances, como a experiência de Bowie como mímico e estudante do teatro japonês Kabuki, dava um ar de pura classe em suas interpretações musicais e performances de palco, e entendi como, anos antes, aquele jovem moleque londrino, nascido no violento subúrbio inglês de Brixton, sem conseguir emplacar nenhum sucesso com seus discos iniciais na segunda metade dos anos 1960, tornou-se um ídolo pop na década seguinte, contando com parceiros importantes ao longo da carreira, como o exímio guitarrista Mick Ronsom e o produtor musical Tony Visconti (responsável, inclusive, pelo último disco do artista).

Ao se conhecer melhor a história do artista, é possível conhecer, mais ainda, a própria história da música nas últimas décadas do século passado. Aquele ouvinte, que se apresente como novato em Bowie, poderá descobrir que o cara não foi apenas um músico de carreira inicialmente mediana que se tornou um astro poderoso anos depois, apesar de nunca ter sido uma unanimidade no ambiente artístico (Caetano Veloso, no Brasil, por exemplo, quando já era famoso com o Tropicalismo, desdenhava das músicas de Bowie, por considerá-las sem graça). Na verdade, na década de 1970, atuando também como produtor musical, David Bowie catapultou a carreira de músicos como Lou Reed, ao produzir o antológico álbum Transformer (que eu já comentei aqui quando do falecimento do próprio Reed, ano passado). Iggy Pop foi outro músico redimido pela ajuda do amigo de um olho azul e outro castanho, quando ao sair da banda punk Stooges e estar completamente falido,  afundado na heroína e na birita, Bowie deu uma mãozinha, produzindo o disco do indomável rockeiro norte-americano, lançando o ótimo álbum, Lust for Life (que acabou virando trilha sonora do filme Trainspotting, aquele que lançou mundialmente o ator escocês Ewan MgGregor).


Bowie era um multiartista, e como músico instrumentista em seu saxofone, ora como cantor, ator, arranjador e produtor musical, enveredou pelas mais extensas vertentes da música, sem perder a originalidade. Sua sonoridade ia do glam até o hard rock, passando pela música negra do soul , até chegar na música eletrônica e flertar com o jazz, como fez em seu disco testamento BlackStar, lançado no dia de seu aniversário e dois dias antes de sua morte. São 50 anos de talento musical espalhados em 26 discos, muitos deles memoráveis. Num excelente artigo escrito para o site Uol, o famoso crítico, músico e radialista Kid Vinil, explicou que muitas vertentes musicais contemporâneas, como o punk rock, tiveram influência da música de David Bowie. Se Bowie não tivesse existido, a cena musical internacional teria sido muito mais chata e previsível. Grupos distintos em diversas décadas, como o Sex Pistols, Siouxsie and the Bansheess, Bauhaus, Pixies, Radiohead, Placebo, Nine Inch Nails, Muse, The Killers, beberam da influência do "camaleão do rock". Não obstante eu insistir que David Bowie não era apenas um cantor de rock, mas sim um músico mais amplo, com composições de músicas ora alegres ou soturnas, mas ao mesmo tempo irônicas e enigmáticas. Como diria o  falecido sociólogo alemão Niklas Luhmann, Bowie era uma espécie de "observador de segunda ordem", que observa um distante planeta Terra, ao mesmo tempo fazendo parte e não fazendo parte de nosso universo terrestre. Como Bowie fazia uma música do tipo "espacial", até o astronauta inglês Tim Peake, que está em órbita, numa missão na Estação Espacial  Internacional, lamentou a morte do cantor, publicando em seu twitter um trecho da música Starman, um dos maiores sucessos do artista, regravado no Brasil pela banda gaúcha Nenhum dos Nós, sob o título Astronauta de Mármore.

Para aqueles que querem, verdadeiramente, iniciar-se na música de Bowie, e compreender as sutilezas, genialidade, e riqueza das melodias e letras de suas canções, encantando-se com  a complexidade do finado artista britânico, recomendo os ótimos discos Low, Heroes e Lodger, que, juntos, compõem a chamada "trilogia de Berlim", tempo em que o músico ficou exilado na capital da Alemanha, entre 1976 e 1978, enquanto tentava se livrar do vício em cocaína e da turbulência da vida de rockstar vivida em Los Angeles. Se quiser, o ouvinte pode ficar escutando, antes disso,o também excelente álbum Station to Station, considerado para muitos críticos  a  obra-prima do cantor e compositor inglês (apesar de os fãs mais puristas preferirem Hunky Dory, da fase pré-Ziggy Stardust do cantor), produzido por uma das lendas do rock, o ex-músico do Roxy Music e futuro produtor de bandas como U2, o célebre Brian Eno.

Encerro aqui essas linhas, rendendo a homenagem que achei devida a um de meus grandes ídolos na música e no estilo, que merecem ser lembradas de forma perene, através do registro dessa postagem. Como eu já havia dito no twitter, prefiro pensar que David Bowie transformou-se novamente em Ziggy Stardust e retornou para seu planeta de origem. Quanto a mim, continuo aqui na Terra como o Major Tom de Space Oddity, esperando também sua hora (longínqua) de partir: Ground control to Major Tom!! The Planet Earth is blue and there's nothing I can do!!!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

"COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ...":lembranças de Gonzaguinha.

Nesse mês o cantor Luiz Gonzaga Júnior, popularmente conhecido como "Gonzaguinha", desconhecido das novas gerações (mas muito conhecido por aqueles que já passaram dos quarenta ou cinquenta) faria 70 anos. Morto em 1991, aos 45 anos, num acidente automobilístico no Paraná, após regressar de um show, Gonzaguinha ainda é uma das maiores vozes que o país já teve, ao lado de ícones como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque. Infelizmente, diferente desses últimos que chegaram a terceira idade, Gonzaguinha não teve tempo de viver a vida por longo tempo, mas a viveu por inteiro, numa história de vida talvez tão fascinante quanto às letras e emoções das suas canções. Tratava-se de um compositor completo, poeta passional, genuinamente brasileiro, nativamente e emocionalmente carioca, romântico e politizado, como um Pablo Neruda do Corcovado. Filho do genial compositor nordestino Luiz Gonzaga, o cantor carioca reconciliou-se com o pai já na vida adulta, e apesar das diferenças de estilo, ambos foram para suas épocas, alguns dos mais talentosos artistas que a música brasileira já teve.

Gonzagão era tradicional, alegre, apolítico e regionalista, enquanto que seu filho, Gonzaguinha, era moderno, introvertido, politizado, rebelde e assumidamente multicultural, mas ambos, pai e filho, tinham um carisma incomensurável. Tais diferenças podem ser vistas no emocionante filme Gonzaga-de Pai pra Filho., de 2012, dirigido por Breno Silveira (o mesmo de "Os Dois Filhos de Francisco"). Assisti a vida dos Gonzaga em um cinema no bucólico e boêmio bairro de Santa Teresa, na altitude de seu morro, no centro do Rio de Janeiro, com sua vista esplendorosa da "cidade maravilhosa". Nada mais emblemático do que ver um filme sobre um compositor e cantor que era a cara do Rio, dentro de sua própria terra (que por sinal gosto muito e onde passei felizes dias de minha infância), ao mesmo tempo em que, por conta das raízes nordestinas que Gonzaguinha tinha, assim como eu, e um histórico de conflitos com o pai na adolescência, o filme de Silveira me fez até chorar, e criar uma relação de empatia, familiaridade e gosto musical pela obra do autor que, em muito transcendeu o filme.

Gonzaguinha era, antes de tudo, um apaixonado, tanto pela vida quanto pelas mulheres, numa escala diretamente proporcional ao seu talento de fazer músicas sobre paixões, política, paz ou natureza. Quem, com alma de poeta, jovem, intelectualizado, no começo de sua vida adulta e cheio de ideais na cabeça, não vai escrever poemas ou canções? Quem não faz isso, principalmente quando se tem uma mulher na mente ou no coração? Gonzaguinha era um apaixonado não só por sua esposa, amantes ou namoradas, mas também pela sua cultura, pelo seu povo, pela sua gente e pela natureza, das árvores, riachos e cachoeiras, contidos em sua canção como na canção Lindo Lago do Amor. Sua via politizada, e seu amor pelas causas progressistas, no combate à ditadura e a exploração capitalista, era bem expressada e cantada em canções como Você Merece. Talvez a música que mais desperte a alma brasileira para o fim dos anos de autoritarismo e início da Nova República foi a canção É, representando o desencanto dos militantes pró-democracia após a derrota do Movimento das Diretas-Já, com a rejeição da emenda Dante de Oliveira, onde Gonzaguinha cantava que " a gente não tem cara de panaca, a gente não tem jeito de babaca, com a bunda exposta na janela, pra passar a mão nela".

Fico imaginando hoje Gonzaguinha aos 70 anos, idoso, se é que ainda chegaria a essa idade, mesmo salvando-se do acidente que o matou, escapando de uma cirrose por conta do alcoolismo ou de um câncer ou efisema pulmonar, por conta do tabagismo exacerbado. Será que ele continuaria progressista, um militante de esquerda, ou daria uma guinada à direita, como fizeram contemporâneos seus como Raimundo Fagner, Alceu Valença e Jards Macalé?  Será que ele continuaria fazendo shows, principalmente fora do país, como fazem Caetano e Gil, viraria ícone, e lançaria livros como um Chico Buarque, na falta de discos? Será que ele encontraria a fé evangélica e se converteria, tornando-se um representante da causa gospel, como Baby Consuelo, depois dos Novos Baianos em sua carreira solo, ou como o sambista Bezerra da Silva, no final da vida? Será que ele se isolaria, com a barba branca e o cabelo ralo, em algum apartamento em Copacabana, acompanhado apenas da presença esporádica dos filhos e de um violão, relembrando os tempos de glórias passadas e conversando de vez em quando com Nelson Motta, ou seria visto ainda à noite biritando em algum bar da Lapa, atrás do sorriso de uma bela mulher, enquanto rabiscasse poemas e versos num guardanapo, por detrás do balcão? Será que ele teria twitter, página do facebook ou instagram, ou escreveria artigos num blog, ou em algum artigo sobre música e cultura, de algum jornal ou revista de distribuição nacional?

E, principalmente? Em relação a esse governo federal, tão criticado pela oposição, raivosa ao PT, partido que nos anos oitenta Gonzaguinha respeitava. Será que ele também iria se transformar num "coxinha", viraria as costas para o partido, como já fizeram outros artistas, atores e cantores, chegando ao cúmulo de falar mal do governo para uma plateia de emergentes em Nova York, como fez o cantor Fábio Jr recentemente, ou sairia à francesa para fora do país, como faz, de vez em quando, Chico Buarque, mantendo ainda seu apoio ao governo e preservando seu status de ícone, dando a mínima para as críticas de uma juventude mimada, de classe média, que gosta de ir a protestos em dias de domingo contra o governo, vestido de verde e amarelo, só pra posar selfies em seus smartphones, que nunca ouviu ou não gostou de escutar suas músicas, e nunca soube o que é enfrentar e ser perseguido pela ditadura?

Talvez Gonzaguinha fizesse tudo isso, virasse um exemplo de cidadão comum ou repetisse a dinâmica das celebridades; ou talvez ele inovasse por completo, surpreendendo a todos nós, como nos surpreendeu, ao partir precocemente, naquela fatídica estrada que tolheu sua vida numa rodovia do sul do país. Talvez sua maior e última inovação tivesse sido a morte, o prenúncio de que nada seria do mesmo jeito outra vez, e o que país, assim como sua cultura e musicalidade sofreriam mudanças profundas. Gonzaguinha partiu antes, talvez para não ver e se decepcionar com a decadência da era do disco, a predominância das mídias digitais, a transformação das rádios FM em espaços para transmissão de "jabás", ou músicas pop de qualidade duvidosa, ou em redes cedidas para igrejas evangélicas. Gonzaguinha veria uma boêmia diferente, não mais de dinheiro contado na mão para pendurar a conta no bar, no fim da festa, mas de bêbados conscientes e preocupados em não serem pegos na Lei Seca, com seus cartões de crédito e débito no balcão para evitar uma peça de museu chamada fiado, saindo mais cedo e de táxi numa cidade com muitos mais ladrões e repressão policial, mesmo que dentro de uma democracia, que caras como Gonzaguinha ajudaram a construir. De qualquer forma, antes de morrer, Gonzaguinha viveu, e não teve a vergonha de ser feliz!! Ele cantou a beleza de ser um eterno aprendiz!!

Talvez para não ver o fracasso das UPPs, os equívocos, contradições e erros do lulo-petismo e os novos rumos da música brasileira, centrados em programas luxuosos de TV como o The Voice, no lugar de grandes festivais, Gonzaguinha tivesse que ter partido tão cedo. Talvez, e sobretudo, talvez, no meu enorme exercício de especulação, Gonzaguinha tivesse que ter morrido para se transformar em lenda, e que lenda: a lenda de um Brasil que resiste, mas não tem medo de se assumir brasileiro!! Um brasileiro típico, chamado Gonzaguinha.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

IN MEMORIAN: CHRISTOPHER LEE- o vilão de voz grave, mas fala adocicada que todos adoravam

Morreu na Inglaterra, aos 93 anos, num hospital em Westminster, por insuficiência respiratória, o ator britânico Christopher Lee. Não morreu apenas um grande e longevo ator, que até onde a saúde permitiu (mesmo esquálido pela velhice e coberto de rugas), atuou em grandes e memoráveis produções cinematográficas, dentre elas a premiada trilogia O Senhor dos Anéis. Lee era um típico ator de filmes do cinema fantástico ou de fantasia, temas que adorava. Foi o vilão Conde Dookan, na segunda trilogia de Star Wars, e sua imagem ficará para sempre na memória das novas gerações como o mago Saruman, da citada trilogia do diretor Peter Jackson.

Entretanto, Lee era mais conhecido, por aqueles muitos que já passaram dos quarenta como eu e alguns que já chegaram até os sessenta anos, como o mais célebre intérprete do Conde Drácula nos cinemas, ou, ao menos, o que mais representou o personagem nas telas (Bela Lugosi ficará para sempre como um dos mais famosos intérpretes do famoso vampiro, mas foi Lee quem mais celebrizou o personagem nos filmes). Dos anos 50 até os anos 70 do século passado, intercalando outros papéis, invariavelmente Christopher Lee aparecia nos cinemas com um novo filme do Drácula, sempre pelos estúdios da produtora britânica Hammer, e o seu personagem, ao menos na minha memória, deixa saudade.

Lembro-me do medo e fascínio que sentia ao ver os filmes de Drácula interpretados por Lee no cinema, que nos anos oitenta já passavam na TV, geralmente nas sessões do final da noite. Fã de filmes  de terror, eu mal podia esperar para ver o tenebroso e sedutor conde aparecer na tela, para, na hora mais improvável, abocanhar sua próxima vítima. Mas Lee também ficou famoso como o vilão dos filmes de 007, com Roger Moore no papel de James Bond, quando interpretou o criminoso Saramanga, no filme O homem da pistola de ouro. Ele também atuou no cinema interpretando Sherlock Holmes, além de uma série de personagens impagáveis, que requeriam um britânico de voz tonitroante, incorporando invariavelmente uma imagem de lorde, ou personagens mais exóticos, como o Doutor Fu Manchu, no filme do mesmo nome.

Christopher Frank Carandini Lee nasceu em 1922, teve 67 anos de carreira no cinema com mais de 200 filmes e uma vida fascinante. Antes de atuar, lutou pela Força Aérea Britânica, na II Guerra Mundial, sendo condecorado seis vezes. Homem culto, falava oito idiomas, inclusive russo e grego, e adorava história e música clássica, pois sonhava em ser bailarino ou cantor de ópera. Alto e magro, com uma voz grave, de nobre  sotaque inglês inconfundível, Lee era o europeu refinado típico, apesar de nascido de família modesta, segundo ele de origem cigana, que acabou se tornando sir no ano de 2009, quando foi condecorado pela rainha da Inglaterra com o título de Cavaleiro Real.

Na chegada da década de oitenta a carreira de Lee esfriou, vindo o ator a participar de produções menores por vinte anos, até que, para não ser esquecido pelas velhas gerações, e lembrado pelas novas, tornou-se o Conde Dookan nos filmes de Guerra nas Estrelas: A Guerra dos Clones e A vingança dos Sith. Entretanto, foi interpretando Saruman, em O Senhor dos Anéis (2001), As Duas Torres (2002), O Retorno do Rei (2003) e o Hobbit (2013), que Lee ficará para a memória recente de gerações de fãs do gênero fantástico, desde a primeira década deste século. Em filmes baseados no livro do escritor J.R. Tolkien, Christopher Lee incorporou como ninguém a figura misteriosa e imponente do mago branco que acaba se voltando para as trevas de Sauron. Ele chega a competir dramaticamente com seu colega britânico no mesmo filme, o ator  Ian McKellen, que interpretou Gandalf, um dos personagens principais da trilogia. Ao encarar com perfeição um dos personagens coadjuvantes do livro de Tolkien, Lee com seu Saruman, permanecerá para sempre como um dos ícones do cinema.

Mas não foi apenas no cinema que o veterano ator britânico se notabilizou no mundo das artes. Talvez realizando na velhice o velho desejo da juventude de se tornar cantor, Christopher Lee foi vocalista de uma banda de heavy metal, isso aos 91 anos!! Declaradamente fã desse gênero musical, o ator gostava de bandas como Manowar, que retomavam nas músicas o universo mítico do Senhor dos Anéis, com letras voltadas para batalhas épicas entre cavaleiros, elfos, duendes e dragões. Como se sabe, os filmes de terror e o heavy metal tem uma relação quase siamesa, e nesse embalo Lee foi chamado para cantar em dois discos, da banda italiana Rapshody on Fire, onde primeiro aparecia somente como narrador, mas depois passou a cantar suas próprias músicas. Em 2014, Lee chegou a lançar seu próprio álbum de metal, Metal Knights, e com a canção Jingle Hell, ele se tornou o cantor mais idoso de heavy metal da história, a ingressar num hit parade do rock internacional. 

Retirou-se, portanto, da vida entre os mortais um ator que se imortalizará para sempre, na pessoa de seus personagens, tanto no cinema quanto na música. Como fã de ambos, eu não poderia aqui deixar de postar minha homenagem a esse grande ator, que viveu muito, teve uma vida intensa e cheia de experiências interessantes, e, nesse momento, deve estar entoando cânticos, com sua voz grave, mas adocicada, entre anjos e demônios, em algum lugar do além. Que Deus cumprimente nos jardins do Paraíso sua alma, Sir Christopher Lee, e que as valquírias lhe carreguem suavemente, como um bruxo Saruman que novamente retornou aos caminhos do bem!! Farewell!!

domingo, 10 de maio de 2015

CRÔNICAS SÓCIO-AFETIVAS: Sobre a maternidade

Meu filho nasceu no dia 10 de abril de 2015, uma sexta-feira, exatamente às 11 (onze) horas. Estive presente ao parto de minha esposa e pude vislumbrar a pequena criança sair do ventre de sua mãe. Exatos 30 dias depois, calhou de o aniversário de um mês de vida de Miguel Antonio cair exatamente no segundo domingo do mês de maio; ou seja, no Dia das Mães. Como recente mãe, creio que minha esposa ganhou este ano o maior dos presentes!! Um baita, pequenino e às vezes chorão presente do Dia das Mães.

Dia esse que tem um histórico curioso, a começar pelos gregos na Antiguidade, que comemoravam o Dia de Rhea, a mãe dos deuses, para celebrar a chegada da primavera na região, nos idos de março.

Mas foi nos Estados Unidos do século XIX, durante a sangrenta Guerra da Secessão no país, que em 1865, foi organizado o Mother's Friendship Days (Dia de Amizade às Mães), para promover entre as mães dos soldados feridos na guerra uma campanha de solidariedade e auxílio às famílias necessitadas, bem como pregando a paz e o desarmamento. No séxulo XX, em 12 de maio de 1907 a religiosa metodista Anna Jarvis criou um memorial em celebração à memória de sua mãe, morta dois anos antes, iniciando uma campanha para que o dia fosse reconhecido como um feriado nacional. A campanha seguiu até 1914, quando o Mother's Day foi aprovado no Congresso americano, e no mesmo ano o presidente Woodrow Wilson proclamou uma resolução declarando o Dia das Mães como data oficial nos edifícios e repartições públicas, sempre no segundo domingo do mês de maio, sendo celebrado naquele ano, primeira vez, em 9 de maio de 1914. No Brasil, em 1932, o presidente Getúlio Vargas reconheceu a data no segundo domingo de maio, passando a vigorar no país o Dias das Mães a partir de então. O curioso é que, historicamente, o Dia das Mães manteve na era moderna uma relação de proximidade com o advento das guerras. A começar pela Guerra da Secessão entre os norte-americanos, sua proclamação como dia oficial no começo da I Guerra Mundail, até ser reconhecido por outros países, como o Brasil, poucos anos antes de estourar o conflito da II Guerra Mundial.

A "Mãe" de Gorki:Mãe de todas as revoluções.
Sobre guerras, lembro-me da "Mãe", uma das grandes obras do escritor revolucionário russo, Máximo Gorki. Na história, Pavel, jovem operário seduzido pelas ideias bolcheviques, enfrenta a fúria do Czar Nicolau II, escudado pela mãe, Pelágia, a verdadeira heroína, protagonista da saga, que suportando a miséria e um marido violento e bêbado que acaba morrendo, ela segue com o filho na luta revolucionária, tornando-se a mãe não apenas de Pavel, mas de todos os revolucionários que sofrem com a opressão czarista. Pelágia torna-se a "mãe da Revolução". Apesar de todo o seu conteúdo político, a obra de Gorki não deixa de captar alguns elementos da cultura russa, onde a instituição do matriarcado tem uma influência muito forte. Afinal, fazer alusão a "Mãe Rússia", é um dos traços característicos do nacionalismo russo, e até no hino do país faz-se referência a figura materna, sendo concebida a pátria como uma grande mãe que abraça a todos os seus filhos.

Pai é pai, e não obstante toda nossa cultura patriarcal oriunda desde os gregos, que antecedeu mesmo a influência judaico-cristã, de valorizar muito mais a figura do pater do que a mãe, acredito, sem sombra de dúvida, que retirando a importância social, nós, homens que somos pais, nunca desfrutaremos em sua completude do amor que uma mãe compartilha por seu filho. O amor de mãe transcende a Criação, antecede a concepção, e talvez por isso o catolicismo seja até mesmo, do seu jeito, uma versão cristã dos velhos ritos orientais, onde a figura materna era deificada muito mais do que a figura masculina do genitor. Não é a toa que o teólogo Leonardo Boff já afirmou em seus escritos que uma das principais e fortes características do catolicismo é seu caráter mariano. Maria, mãe de Jesus, durante séculos, até a Reforma Protestante, foi vista por alguns crentes como uma divindade até maior do que Cristo. A santificação da figura da mãe tem, portanto, uma fundamental influência do cristianismo e um pouco disso herdamos em nossa cultura ocidental, até mesmo na sacralização da palavra "mãe", que envolve alguém que, por ter concebido a vida em seu ventre, ganha um destaque todo especial na vida de qualquer um, pois foi através dela que conhecemos o mundo, respiramos pela primeira vez fora do líquido amniótico do ventre materno, e é ela a primeira pessoa que acolhe o nosso choro, o primeiro de muitos e muitos choros!!

É por isso que, este ano, celebrei o Dia das Mães de uma forma mágica e totalmente especial, em relação aos dias anteriores, pois pude ter ao meu lado duas significativas mães: a minha própria mãe, a quem já homenageava, beijava e presenteava há muitos anos, e agora minha esposa, mãe de meu filho, uma mãe jovem, de primeira viagem, mas que já demonstra o comovente carinho, amor, devoção e preocupação que só uma mãe consegue ter. A elas e a todas as mães do mundo, eu desejo, do fundo do coração, muitos e cada vez mais felizes, DIA DAS MÃES!!! Obrigado por existirem, mamães!!!

sexta-feira, 20 de março de 2015

MÚSICA: No Dia Internacional do DJ a minha homenagem a um deles-Dj Magão, o artista que faz da música um futebol campeão!!

Em 9 (nove) de março é celebrado o Dia Internacional do DJ, e também nesse dia, e nesse mês eu tirei esse espaço pra homenagear um de meus amigos e cara de profundo talento: Alessandro Duarte, mais conhecido como DJ Magão!!



Filho de um ex-jogador, ex-técnico e comentarista de futebol, Magão tem o futebol no sangue, mas é nas pistas de música e não nos gramados, que o cara se revela um craque. Magão organiza seu setlist de músicas em suas apresentações em festas e bares como um técnico que escala um time: alguns podem não gostar da escalação, mas o plantel acaba cumprindo com sua missão, fazendo gols no decorrer da partida. É o estilo Magão de fazer música num Maracanã lotado de sonoridade e rock'n roll!!

Eu lembro do cara há mais de vinte anos, nas grandes festinhas, festivais de rock e luaus que havia na cidade de Natal, na praia de Ponta Negra. Foi numa dessas raves pré-históricas que eu vi, pela primeira vez, um rapaz branco e franzino, magro como um macarrão, debaixo de uma lona, lotado de equipamentos e caixas de som, fazendo aquela garotada universitária de vinte e poucos anos dançar chapada ao som de hinos da época, que iam de Legião Urbana a Echo and The Bunnymen. Bons tempos aqueles. E o bom foi que o cara continuou fazendo música. Aquele moleque franzino acabou se tornando um respeitável senhor, convidado para grandes eventos sonoros da cidade, como o MADA (Música Alimento da Alma) e muito mais!!

Sobre o estilo musical, aqui nosso querido Dj merece um capítulo aparte: numa cidade invadida nos últimos anos pela colonização do forró, axé-music e sertanejo universitário, como um bom jogador old style, Magão permaneceu fiel às suas origens rockeiras, mantendo uma escalação de músicas entre o rock clássico e o rock mais moderno. Na junção de velhos zagueiros do rockabilly,  progressivo e metal, aos novos craques pós-grunge e pós-brittpop, nosso Dj predileto produz aventuras sonoras interessantes, que não deixam nada a perder às grandes festas rockeiras de espaços do gênero, como em São Paulo ou Porto Alegre. Assim, Magão concebe seus "jogadores" musicais, que agradam as velhas e novas gerações. É "dando um chapéu" na mesmice e "chutando de bicicleta" que Magão fez emplacar um estilo original numa cidade pequena, mas globalizada, que apesar de provinciana ainda mantém na reunião de suas tribos urbanas, em festas bem musicadas, a presença e o estilo de artilheiros das pistas, que sem "firula", fazem um"gol de placa" ao tocar música de qualidade.

Se na "catimba" das rádios, principalmente em Natal, não vemos hoje clássicos ou novidades do rock rolarem nas caixas de som, ao menos Magão é um dos caras que faz o seu dever de casa, de Dj rocker, iluminando o placar nas suas pickups, tocando músicas que muita gente (ou ninguém antes) ouviu!! Como numa "marcação homem a homem", Magão marca cada música como um olheiro do Barcelona, mirando a escalação de canções como que prevendo um estádio lotado de ouvintes, a aplaudir ou vaiar seus atletas em campo. Seja nos bares ou festivais, na sua fan page na internet, seja em casa ou nas rodas de amigos, Magão Duarte transforma qualquer "pelada" rockeira num Lollapalloza papa-jerimum, ao colocar pra rolar músicas que qualquer rockeiro de respeito montaria torcida organizada para escutar. O melhor da noite para um Dj, suponho eu, seja quando, "ganhando de virada" numa noite insossa e de pouco papo, um desses profissionais da música consegue fazer com que uma coletividade inteira se movimente e comece a dançar e cantar, "matando a jogada" do tédio e da falta de inspiração. Afinal, som de verdade ganha em campo e não no tapetão!! E pra isso existem Djs como Magão, "matando no peito" qualquer sonoridade,  colocando seu escrete musical em campo.

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Neste blog, portanto, após meses de inércia mental e bloqueio criativo sem escrever uma linha sequer, inauguro em grande estilo os artigos de 2015 rendendo homenagem a um grande amigo e cara que considero, mais do que eu, um profundo conhecedor de sons híbridos e sensacionais. Talvez um de meus sonhos de moleque fosse "fazer tabela" com um desses craques, e quem sabe fazer um "gol olímpico", ao trazer para os lugares e pessoas que curto um som que elas também gostem. Nesse sentido, sou "camisa 12" do Rock, e apesar de ver muita gente "fazendo cera" e cometendo "um frango" ao ouvir determinadas porcarias que não são música, mas poluição sonora, gostaria de "dar um chocolate" nos defensores do mau gosto,  mandando meu recado para aqueles que preferem ficar escutando Ivete Sangalo, Anita ou ou Funk Pancadão: "Magão!! Aumenta que isso aí é rock'n roll!".

Gates e Jobs

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Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

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Até quando teremos que ver isso?