Passados vários anos, depois de ter lido de tudo um pouco, eis que me surge às mãos, no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, uma obra-prima de nonsense e puro estilo rock'n roll: a biografia de Ozzy Osbourne, intitulada Eu sou Ozzy (Ed. Benvirá). Voltando do Rio Grande do Sul, em direção a Natal, meu voo fez uma escala em Belo Horizonte e durante o período de conexão, fiquei no saguão de embarque folheando o livro na livraria do aeroporto, e, seduzido pelo texto, acabei comprando o livro (assim como a biografia de Keith Richards, do Rolling Stones) e saboreei minha leitura durante todo o tempo de espera no aeroporto, assim como durante o voo.
Nas três horas seguintes que levaram até Natal, não consegui despregar os olhos do livro e de como a estória de um dos ídolos do rock e figura representativa do heavy metal era tão fascinante. A estória do menino nascido num bairro inglês pobre da cidade de Aston, nas proximidades de Birmigham, revelou-se ao mesmo tempo hilária, trágica e alucinante. É o próprio Ozzy quem destila suas memórias, em verdade muito prejudicadas pelo uso abusivo de álcool e drogas durante tantos anos, que ainda intriga muitos profissionais da medicina de como esse velho roqueiro inglês ainda permanece vivo. Pois eis que o hoje sexagenário John Michael Osbourne conseguiu sobreviver e se tornar não apenas um ícone da música mundial, como também um atabalhoado, mas arrependido pai de família, que fez, sim, muitas presepadas; inclusive arrancar a cabeça de um morcego, vivinho da silva, durante um show! (o que lhe rendeu meses de tratamento e injeções contra raiva e outros distúrbios colaterais).
Mas fora o mundinho de vivências centrado na tríade drugs, sex and rock'n roll, o que se pode tirar de lição do mundo de Ozzy é de como um grande artista surgiu, superou as adversidades, reinventou-se e se tornou, hoje, uma referência na cultura pop global. Ozzy fez parte da mitológica banda Black Sabbath, e em seu livro, para os fãs, encontramos toda a história do grupo e das aventuras desses rapazes cabeludos fora dos palcos, durante os inventivos anos setenta; além de saber um pouco da história daquele gênero musical que até hoje seduz milhares de ouvintes em todo o mundo:o heavy metal. Sabemos um pouco da religiosidade e do misticismo de alguns componentes da banda, e de que Ozzy, com seu jeitão caipira de garoto do interior, de origem operária, que já trabalhou em fábricas e matadouros e que já tinha sido até preso em reformatórios juvenis por diversos furtos, na verdade fugia muito da figura de um líder satanista, interessado em pregar feitiços no palco ou invocar o diabo em cada show do Sabbath. Na verdade, descobrimos o que os menos incautos já sabiam há muito tempo: tudo não passava de jogo de cena. É hilariante a descrição que Ozzy faz dos fãs alienados, interessados em magia negra, que cercavam a banda e chegavam a ensair cultos satânicos nos lobbys de hotel, após cada show do grupo, e que para Osbourne não passavam de motivo de piada. É de extremo humor o episódio em que Ozzy cita, que cada vez que vinham aquelas pessoas esquisitas, vestidas de preto, com a cara pintada de branco, convidando-o para uma missa negra no cemitério, o vocalista do Black Sabbath respondia: "os únicos espíritos do mal que eu quero ter contato após o final do show são whisky, gim e vodka!", ou quando finalmente sentou ao lado deles, fazendo parte daquele circo patético, quando surpreendeu a todos, pulando no meio do círculo e cantando em cima de um pentagrama: parabéns pra você.

o que merece destaque e é um dos fatos trágicos que mais marcou a biografia de Ozzy, que foi a morte do guitarrista Randy Rhoads. Rhoads, um virtuose da guitarra e ex-estudante de música clássica, filho de uma concertista, sem dúvida fui um dos responsáveis pela ascensão de Osbourne na sua carreira solo, colaborador e autor dos riffs de guitarra, dos dois primeiros e até hoje melhores álbuns do cantor: Blizzard of Ozz e Diary of a Mad Man. O jovem guitarrista magricelo, baixinho e com cara de moleque não incorporava em nada os cacoetes dos músicos de rock da época (não consumia álcool e nem drogas, era religioso, gostava de fazer trabalhos sociais, era avesso à badalações e totalmente devotado à música) e a forma trágica como morreu, num estúpido acidente de avião, com apenas 25 anos, marcou indelevelmente a carreira do artista e ser humano Ozzy Osbourne, talvez tanto quanto a perda de seus outros entes queridos.

Atualmente, Ozzy assina no jornal britânico The Sunday Times uma coluna médica (isso mesmo, pasmem!), onde dá dicas de saúde, inclusive falando dos riscos de medicação excessiva, uma vez que todo o tipo de remédio que já usou na vida (inclusive pra se livrar do álcool e das drogas), serviu para montar o tipo lesado que se viu nos programas de televisão. Ozzy diz claramente que a voz enrolada e o tipo tosco que por vezes aparecia nas câmeras, não era uma estratégia de marketing para montar a imagem do "vovô piradão"; mas sim demonstrar a realidade de que, realmente, devemos ter cuidado com a saúde e que meter o nariz (olha o ato falho!) onde não é chamado, não é lá boa coisa. Assim, até no meio médico o "Dr. Ozzy" acabou ganhando suas páginas de destaque.

Imperdível também a autobiografia da roqueira e poeta americana Patti Smith. Vale muito! Ps. Também gostei da de Keith Richards. Uma verdadeira história do rock. Abraços. Daniel Gringo's. Danf1110@hotmail.com
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