segunda-feira, 3 de agosto de 2009

ECONOMIA: Democracia Digital-Nunca estivemos tão conectados


Na Suiça já é possível acessar a internet sem fio pelas ruas de Genebra apenas ligando o seu notebook. Em vários aeroportos no mundo o serviço já é totalmente gratuito, e a tendência global é de que em pouco tempo (até mesmo meses), teremos uma nova era digital em que os serviços de comunicação via banda larga não serão mais obrigatoriamente cobrados. Será como hoje ocorre com a televisão, em que o consumidor, ao comprar o televisor tem direito à rede aberta, enquanto que o pacote de serviços da Tv paga é opcional.





No final da década passada, quando a conexão a internet ainda era pela jurássica via discada, já era possível utilizar a rede sem pagar um centavo por isso, quer dizer, quase sem pagar, uma vez que na época havia sido feita uma engenhosa matemática entre os provedores e as companhias de telefonia, onde se pagava não pelo pelo acesso, mas sim pelos pulsos consumidos durante a ligação. Logo em breve surgiu a banda larga, e o que ora outrora um capricho burguês tornou-se realidade de milhares de lares da classe média baixa do país, assim como meio único e indispensável de comunicação nas empresas e repartições públicas. Atualmente, a ANATEL tem um projeto de implementar no país um modelo de banda larga sem fio, em todos lugares, mediante um simples modem portátil, no formato de uma tomada, que ligado à rede elétrica já produz o sinal virtual, permitindo o acesso a internet em todos os lugares.

Creio que a popularização da web passa pelo discurso da democracia digital, quebrando-se com as resistências capitalistas da velha visão contratualista do "pague para usar", como apregoava o economista liberal Milton Friedman da Escola de Chicago, ao afirmar que não havia "jantar de graça". A internet há muito deixou de ser um privilégio de poucos abonados que tinham condições de comprar um computador, tornando-se a ordem do dia, na nova realidade do século XXI. Não obstante os ermitãos de ocasião, que pela filosofia de vida abominam celulares, quanto mais a internet, estamos hoje indissoluvelmente ligados, seja pelos nossos notebooks, twitters, blackberrys ou i-phones da vida. A eficácia desses meios de comunicação já restou comprovada desde o controle do tráfego rodoviário mediante a utilização do GPS na telefonia móvel, até a cobertura midiática das reprimidas manifestações populares no Irã por meio do Twitter, quando os celulares substituiram as câmeras de Tv, ao mostrar a repressão à liberdade da imprensa, durante os conflitos de rua após a fraudulenta eleição de Ahmadinejad. Hoje em dia, em milhares de aeroportos, é comum em seus saguões ver-se negócios serem fechados por executivos em trânsito, bem longe de seus escritórios, e, nas universidades, é cada vez mais rotineiro ver estudantes nos pátios das faculdades escreverem suas monografias em seus computadores portáteis, fazendo seus trabalhos acadêmicos ou pesquisando em bibliotecas virtuais utilizando a rede. Temos internet por todo lugar, numa conexão que se tornou realmente inevitável, e não dá mais para o Estado se ver fora disso, na ausência de regulamentação do setor, deixando tudo ao léu da iniciativa privada, uma vez que a concessão do serviço ainda é do poder público, e é obrigação desse poder garantir a universalização da informação, propiciando internet para todos.
Já é possível hoje escapar de pagar um provedor particular levando seu note para um shopping center ou para dentro de uma escola, sem que ninguém lhe cobre pelo serviço. A rede é pública, assim como é pública a conexão, com novos filtros, antivírus e protetores de rede distribuídos no mercado, com a compra de novos computadores. A televisão está cada vez mais fundida com a nova mídia virtual e com o sinal digital os novos aparelhos, cada vez mais sofisticados (inicialmente caros, mas com preços reduzidos em questão de meses com o surgimento de produtos cada vez mais novos) serão capazes de interagir diretamente com a internet, sem que seja necessário sequer comprar um computador, assim como ocorre hoje com os celulares.

Num panoptismo às avessas de um "big brother orwelliano", a exemplo do programa de TV do mesmo nome, que deu fama a Endemol e se tornou parte da cultura de massa do século atual, hoje, todos nós podemos ser vistos ou conectados, aonde queremos e quando queremos, pelos milhares de satélites que nos acompanham todos os dias, além das estrelas que nos piscam dos céus. Somos uma humanidade com as mesmas deficiências dos tempos de nossos antepassados pré-históricos, com consciência de nossa mortalidade, fragilidade diante de epidemias, inclinação para as guerras e propensos irracionalmente ou racionalmente a manter a desigualdade social, a miséria, a exclusão e a fome, mas somos capazes de compartilhar experiências e opiniões sem nunca termos visto sequer a cara de nosso interlocutor, mediante um chat na internet ou por uma conversa de MSN. Sou convidado a ter "um milhão de amigos", como diz a música do Roberto, sem nunca ter conhecido um terço deles, em diversas partes do mundo, conversando pela língua global do inglês ou atrevendo-me a manter um diálogo intercultural através das novas mídias, como o tal do Blackberry. As crianças da atualidade largaram seus carrinhos de brinquedo e suas bonecas de pano e agora vivem entretidos na rede, compenetrados, plugados eternamente na tela de seus computadores cada vez mais minúsculos e inquebráveis, sem perturbar seus sequiosos pais, atarefados também em suas funções laborais ou domésticas. Eu mesmo, ao exercitar meus dotes medíocres de escritor, utilizo da rede como voz para meus fanzines virtuais, meus panfletos digitalizados, sem ter que subir no banco de uma praça ou na mesa de um bar para ditar minhas opiniões ou discursos.


Se quando o primeiro aparelho de televisão ao ser ligado pertencia a uma família rica e abastada dos Estados Unidos na década de quarenta, e hoje pode se encontrado até numa casinha de papelão embaixo do viaduto, acredito que os computadores ou suas mídias futuras correlatas também estarão disponíveis com redes livres em cada metro quadrado desse mundo, seja sob a forma de celulares ou de minúsculos notebooks. É inadmissível, portanto, ter que pagar cifras acima de duas casas decimais para ter acesso a uma linha telefônica e uma internet banda larga, com a democratização cada vez mais do acesso à internet, pela difusão das conexões de rede pública nos espaços destinados à circulação de pessoas, como praças, shoppings, escolas e aeroportos. Assim como no passado nas favelas se defendia as rádios comunitárias, defendo agora as redes comunitárias, com acesso livre a todos, com ou sem computador, com ou sem televisão, ou munidos apenas de seus celulares, com direito a acessar sem restrições a todo o conteúdo que desejarem na rede mundial de informação. No movimento dos Chiapas no México, ou na selva colombiana, revolucionários para uns, e terroristas para os outros já estão furando os bloqueios, esnobando a ganância capitalista dos provedores, e estão lá, divulgando suas ideias, propagando seus manifestos, denunciando as hipocrisias, e gritando alto por via de seus e-mails e mensagens de texto: terra, paz, liberdade e banda larga!!! Abaixo o monopólio e os cartéis da telecomunicação!!! Viva a democracia digital!!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

HUMOR: REQUIÉM PARA UM HUMORISTA-Um tributo a Chico Anysio

Na revista Isto É da semana passada (Edição 2071, de 22/07/2009), a revista expõe reportagem e entrevista feita pelo jornalista Leonardo Attuch, com o humorista Chico Anysio, de 78 anos, debilitado por um enfisema pulmonar, e ressentido por ter sido mantido na "geladeira" pela Rede Globo, empresa com a qual o artista mantém contrato até 2010.


Entre tosses e resmungos, a reportagem da revista nos faz ver um Chico no ocaso da vida, que reconhece sua limitação física, o peso da idade e o acúmulo de doenças, e que até já avisou em seu blog: "que está de saída". Sabe-se, por exemplo, que décadas de fumo compulsivo não renderam apenas o comprometimento dos pulmões de um dos grandes ídolos do humor brasileiro, mas o cigarro, assim como suas outras escolhas, foram determinantes para o artista se encontrar como agora, com o ônus e o bônus de suas opções.

Endividado, após ter sido responsável pelo sustento de nove filhos e várias ex-mulheres, ao contrário dos muitos que pensam que o meio artístico é um cenário natural de ostentação e riqueza (que o diga a Revista Caras), hoje o humorista Chico Anysio vive num modesto apartamento de dois quartos e noventa metros quadrados em São Paulo, depois de anos morando no Rio de Janeiro, mesmo agora comemorando sua inédita participação na novela de Gloria Perez, Caminho das Índias, como que se a emissora da família Marinho tivesse realizado um mea culpa após a publicação da matéria de Isto É, que revelou a delicada situação que vive hoje um dos artistas que já foi a maior fonte de audiência da emissora.

De fato, a meu ver, Chico Anysio representa como ninguém, assim como foi Oscarito nos anos cinquenta, a faceta mais característica do humor nacional do século passado. Quando a televisão assumiu de vez o lugar do cinema na divulgação da comédia, substituindo as cinematográficas chanchadas do estúdio Atlântida pelos programas humorísticos da rede Globo, ou das extintas redes Tupi e Excelsior, com programas como A Praça é Nossa, no final dos anos sessenta surgiram humoristas como Chico Anysio, Jô Soares e Renato Aragão que reinaram na década seguinte, cada um deles fazendo um humor peculiar, original, característico, que iria marcar historicamente os traços da cultura pop brazuca do século que passou.

Recordo bem enquanto criança, na década de setenta, de um Chico Anysio em pleno vigor, no auge de seu talento e criatividade, criando tipos impagáveis, personagens que já entraram no imaginário popular, e cujos bordões eram repetidos à exaustão em todos os lugares, dos jantares em família, nos locais de trabalho e nas mesas de bares. É dessa época que surgiram personagens hoje antigos, como o sertanejo Pantaleão, um velho caolho, mentiroso compulsivo, contador de casos estapafúrdios, que mediante uma estória e outra tentava convencer seus espectadores da verdade de seus casos absurdos, perguntando de instante em instante à mulher: "É mentira, Terta??". Muito provavelmente o personagem Pantaleão era inspirado na figura dos velhos sertanejos da infância do humorista, em Maranguape, sua terra de nascença, no interior do Ceará. Como se sabe, hoje a terra dos Jereissatti, ou do político Ciro Gomes, é um celeiro de humoristas, conhecida pelas casas de humor de Fortaleza, onde predomina o stand up comedy, forma de humor tradicional adquirida das salas de comédia dos Estados Unidos, onde o humorista fica em pé no teatro, apenas munido de um microfone em cima do palco, diante de sua platéia, animando o público com suas piadas e casos engraçados.

Pois foi do Ceará que surgiram humoristas consagrados como Anísio e Renato Aragão, com sua forma de humor diferenciada, assim como hoje, o cetro de rei da comédia foi passado para outro cearense: Tom Cavalcante. Entretanto, os dois primeiros correspondem a escolas de humor diferenciadas, enquanto que Cavalcante reflete no seu trabalho muitos dos traços inspirados no mestre de Maranguape. O humor de Renato Aragão (ou Didi Mocó, se preferirem), é um misto de humor chapliniano com comédia pastelão, ao estilo dos Três Patetas, e foi responsável pela consolidação do grupo de comediantes mais famoso da história da cultura nacional, os Trapalhões autor de filmes campeões de bilheteria durante os anos setenta e oitenta. Agora, enquanto Aragão incorporava o palhaço triste, numa comédia nonsense bem ao gosto do público infanto-juvenil, o humor de Chico Anysio era mais adulto, mais sarcástico e crítico, próximo do que era feito pelo antológico grupo inglês Monty Python. Cada personagem criado e representado por Anysio, com trajes, maquiagem e entonação de voz característicos, representava um tipo humano do imaginário coletivo. Seja pelo velho ranzinza, judeu e muquirana que era o Popó, o jogador perna-de-pau e zarolho Coalhada, o ator picareta, língua presa e canastrão Alberto Roberto, o alcóolatra e mulherengo Tavares, o desdentado e fanho apresentador de telejornal Roberval Taylor, a velha dama gaúcha Salomé de Passo Fundo, ou o negro do morro, malandro e cara de pau Azambuja.








Com tantos personagens, não foi à toa que Chico Anysio seguiu altivo e com alta audiência na televisão brasileira durante quase três décadas. Nesse período novos personagens foram surgindo, alguns tão bons que perseveraram com quadros ativos durante anos, dignos de lembrança pela alta dose de conteúdo crítico e criatividade, tais quais Justo Veríssimo, o deputado nordestino, reaçonário e demagogo que em suas entrevistas, sempre dizia que "odiava pobre", ou o singular Painho, um pai-de-santo baiano exageradamente gay, que tratava e destratava de forma hilária suas discípulas, com seu bordão inesquecível: "sou doido por essa neguinha...". Somam-se muitos outros personagens, novos e antigos, mais ou menos engraçados, e o último que vai permanecer na imagem dos mais jovens na telinha, é do incansável e cético professor Raimundo, diante de sua escolinha dos mais exóticos e esculachados personagens, até sair no começo desta década, cuja fórmula foi imitada à exaustão por diversos comediantes, e hoje é representado (pasmem), pelo ex-sex simbol Sidney Magal, cantor brega-cult, colocado agora na posição de humorista.
Fica a indagação do legado de Chico Anysio de quais hoje são os programas ou artistas, além de Tom Cavalcante, na Rede Record, que podem retratar o talento e a influência do idoso ídolo. Programas humorísticos decadentes como o Casseta & Planeta, passam longe da criatividade de Anysio na criação e desenvolvimento de personagens, por serem ausentes de carisma demais, ou por terem a presunção de serem intelectualóides demais, sobretudo após a morte do mais eloquente e engraçado membro do grupo Casseta, que era o finado Bussunda. A equipe do Pânico na Tv, da Rede TV, liderada pela anárquica dupla Vesgo e Silvio, até arranca risadas com suas tiradas cômicas, sacaneando e ridicularizando gente do show business, numa sátira do mundo da fama, mas não consegue nem de longe ter o carisma e a complexidade dos personagens de Chico Anysio. Foi, inclusive, extremamente válida, a iniciativa dos humoristas do Pânico em render uma homenagem a Chico, incentivando seu retorno à programação da Rede Globo, recebendo do mestre afagos simpáticos, em muitas das brincadeiras da dupla. Quanto ao pessoal do CQC (Custe o que Custar) da Band, não dá pra se falar propriamente de humor, no estilo de comédia ou programa de humor, mas sim de jornalismo humorístico, onde os repórteres comandados por Marcelo Taz também fazem um humor inteligente, mas muito diferente daquele desenvolvido pelo mestre cearense.
É certo que Chico Anysio como pessoa teve suas controvérsias, seja na vida pessoal ou nas posições políticas, rendendo até um casamento com a ex-ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Melo, em plena era-Collor, ou através de seus gestos grosseiros ou politicamente incorretos, quando questionou, em entrevistas, como a feita no programa de Jô Soares, os homossexuais, dizendo que tinha orgulho de não ter tido filho "drogado, vagabundo ou gay", ou quando em um de seus quadros, no começo do governo Collor, criticou abertamente Lula, então um líder de oposição, chamando-o de idiota ou insinuando que ele só falaria besteiras (coincidentemente, bem na época que o humorista era casado com uma ministra). Chico pode ser questionado pelos mais crentes até pelo seu ateísmo, tendo em vista que hoje, perto, segundo ele, do final da vida, ele disse não acreditar em mais nada, na sua entrevista na Isto É, e, afirmar cético que no fim da vida não haveria mais nada, a existência simplesmente desapareceria, acabou. Apesar dos tropeços ou das polêmicas, a qualidade artística do trabalho de Chico Anysio é inquestionável, e adiantando-me àqueles que já se prontificam a redigir seu obituário, eu me coloco na posição de inúmeros fãs que se já não se encantam com o trabalho do mestre, ao menos rendo homenagem ao humorista, escritor, e pintor Francisco Anysio de Oliveira Paulo Filho, antes que ele parta desse mundo. Enquanto isso: "o salário óoo!!"!"

terça-feira, 28 de julho de 2009

ESPORTE: A traição da velocidade-Quando as tragédia das pistas vira atração da Fórmula 1

Recentemente, vimos mais um piloto brasileiro vítima de um acidente grave no circuito da Fórmula 1, no triste episódio envolvendo o corredor da Ferrari Felipe Massa. Dessa vez foi até pior, pois o acidente foi causado, inadvertidamente, por outro piloto brasileiro. No caso, um dos mais azarados, caso do nosso anedótico Rubinho Barrichello.

Por pouco não vimos se repetir a tragédia de 1994, na malfadada curva Tamborello, no circuito de Ímola, onde a vida de Airton Senna foi tragicamente ceifada no fatídico 1º de maio daquele ano, quando o veículo pilotado por Senna espatifou-se numa parede de concreto, lançando a barra de suspensão no ar, como uma lança certeira, diretamente no crânio do ídolo brasileiro das pistas, tricampeão mundial, como se fosse uma cena do filme de terror Premonição, quando a morte acontece das formas mais incríveis e inusitadas. Lembro-me que eu estava numa manhã de domingo na casa de um casal de amigos, jogando uma prosaica partida de xadrez, com a televisão ligada, entretido com o tabuleiro, quando todos nós fomos surpreendidos por um fato inacreditável. Pela primeira vez na história um piloto de corridas brasileiro morria nas pistas de Fórmula 1, no auge da popularidade, em plena atividade. Há cerca de quatorze anos antes, outro piloto brasileiro consagrado nas pistas, José Carlos Pace, também morria tragicamente, só que fora de um carro de corrida, num terrível desastre de avião. O impensável acontecia conosco, brasileiros, num cinematográfico drama automobolístico. Automaticamente galgado à posição de herói nacional, vimos seu caixão ser conduzido por multidões quando da chegada de seu féretro em São Paulo, repetindo uma comoção nacional até mesmo maior que o enterro de um recém-eleito presidente Tancredo Neves em 1985, ou do suicida Getúlio Vargas, décadas antes. "Nunca antes nesse país", no bordão característico de nosso presidente Lula, havia se enterrado um brasileiro, campeão mundial de Fórmula 1. O mesmo Barrichello que conduziu o caixão do ídolo morto, foi a testemunha e indiretamente responsável pelo acidente que vitimou dias atrás o piloto Felipe Massa.

As pistas são traiçoeiras, pois esse é o risco da velocidade, e mesmo com todas as precauções e medidas de segurança cabíveis, com o emprego cada vez mais crescente de altas tecnologias, é impossível prever o imponderável e o que pode acontecer com um piloto de corridas, cada vez que ele entra no cockpit. O acidente de Massa só não foi mais trágico e mortal, porque com o emprego de novas substâncias na montagem de capacetes, foi possível atenuar um impacto que poderia ser ainda pior, amortecendo a semiblindada viseira do capacete de Massa, a mortal peça de veículo que o acertou em cheio.

Em nossas conexões entre o passado e o futuro, num caso de coincidência macabra, Felipe Massa também foi vítima de uma peça de carro, transformada em bólido mortífero tal qual uma bala de revólver, quando a mola propulsora do veículo de Barrichello, soltou-se do chassi, vindo a ser arremessada diretamente na cabine do desafortunado piloto que vinha logo atrás (no caso, o infeliz Massa), atingindo-o na viseira e provocando não só a rachadura do capacete, como também uma lesão no crânio do piloto, ameaçando até sua visão.

Nunca fui muito fã de corridas e nem de Fórmula 1, pois acredito que isto é uma questão cultural, que vem de formação, coisa de berço. Sei de muitos que são tão fissurados em corridas que se tornam praticantes de ralis, esportes radicais, e tornam-se adeptos de trilhas, chafurdando na lama de moitas e florestas, com seus jipes, em ritmo de aventura. Louvo isso, acreditando que isso até faz bem à saúde, ao lidar com um pouco de adrenalina, apesar de não ser minha praia. Entretanto, enquanto outros guris, na minha infância, brincavam de autorama, eu preferia meus jogos de tabuleiro ou montar meu forte apache, imitando os filmes de faroeste, do que ficar plantado no chão, vendo carrinhos de brinquedo elétricos correndo para lá e para cá. Bueno! Gosto não se discute!

Agora o que mais me acha a atenção é o prazer quase erótico que suscitam as corridas de automóveis. Além dos milhões proporcionados pelos patrocinadores, belas mulheres entre os boxes, a fama e o glamour adquirido com as corridas, eventos como a Fórmula 1 traduzem um esporte midiático tão assistido mundialmente quanto o futebol. Assim como os gladiadores da arena, no coliseu romano, assemelhavam-se aos jogadores de futebol, creio que os competidores de fórmula 1 equivalem aos antigos corredores de bigas, tão presentes na Antiguidade e muito bem retratados no clássico filme Ben-Hur, com um Chalton Herston ainda jovem fazendo a turba vibrar com suas manobras radicais, em sua carruagem romana. A emoção das corridas de automóveis é a emoção do perigo, o suspense em cada curva, pela expectativa mórbida ou atroz de ver os pilotos desafiando as leis da física, em cada arremetida, a ponto de se estatelarem numa manobra mal feita, ou provocarem acidentes horríveis, como o que vitimou o piloto austríaco Niki Lauda, nos anos setenta, quando seu corpo em chamas saiu milagrosamente do carro, numa cena que ficará na memória de todos os fãs desse célebre esporte da velocidade.

Enquanto isso, um machucado Felipe Massa luta para se recuperar, com o devido apoio de sua atônita família, mediante a expectativa popular. Não deixa de ser um alívio saber que dois raios não caem no mesmo lugar, e que, felizmente, o que ocorre com Senna não se repetiu com Massa, ganhando ele pontos na vida e mais uma chance com o Papai do Céu. Apesar dos pesares, e de todas as velocidades, é sempre bom dar uma parada nos boxes, no meio da corrida, para poder pensar, que apesar das batidas e colisões do dia a dia, ainda podemos dizer, copiando o sotaque baiano, que: a vida é MASSA!

terça-feira, 21 de julho de 2009

CORRIDA ESPACIAL: "Eu vivo sempre no mundo da Lua"-40 anos da chegada do homem ao solo lunar

Dia 20 de julho. Um dia altamente significativo. Se para aqueles que amam a astronomia, que adoram ficção científica ou que simplesmente admiram as conquistas da ciência e da tecnologia, essa data significa a chegada do homem à lua, a bordo da nave Apollo XI. Hoje, especialmente em 2009, a data é ainda mais importante, pois corresponde aos 40 anos desse fato histórico.


Mas tenho outras razões bem mais particulares e afetivas para gostar do dia 20 de julho. Afinal, essa data lembra-me o aniversário do meu pai, que nasceu nesse dia, e também é o aniversário de casamento de meus genitores, que já completaram mais de quarenta anos juntos. Haja paciência e muito amor para aguentarem um ao outro no decorrer da velhice e dos maus humores típicos de quem convive há muito tempo com outra pessoa. Assim como chegar à lua é um grande feito, manter um casamento saudável por tantos anos também é proeza de poucos, e saúdo honrado meus pais, assim como saúdo os astronautas de 1969!

Mas a chegada do homem à lua, tem ainda mais aspectos diretamente relacionados a minha vida pessoal, que, segundo alguns, cabalisticamente, são bem mais relevantes do que meras coincidências. Se o dia 20 de julho é a data do aniversário de meu pai, o dia 05 de agosto, data do meu aniversário, também não é menos emblemático. Afinal, na mesma data, em 05 de agosto de 1930, nasceu Neil Armstrong, o discreto astronauta que se tornou o primeiro homem a pisar na lua, naquele fatídico 20 de julho de 1969. Quer mais motivos do que isso para que eu comemore tal feito histórico memorável, que pelas conexões tem tudo haver com minha história pessoal? Numa hora como é esta é que penso o quanto foi acertado o nome deste blog: conexões inevitáveis. Nesse caso, a conexão é inevitável, mesmo!!




Sim, nada melhor do que comemorar a data olhando à noite para os céus, como os namorados apaixonados fazem em dia de céu límpido, admirando o astro lunar. Lembro-me que um dos objetos que pedi de presente a meu pai, quando era criança, tratava-se de um telescópio, pois eu, assim como todos os outros meninos nerds (hoje, na era da internet, chamados de geeks) da minha época, era fã de astronomia. Influenciado por meu pai, que na infância, gostava de ler as estórias em quadrinhos de Flash Gordon e suas viagens espaciais, cresci vidrado em histórias de meteoritos, asteróides, cometas, seres do espaço, viagens intergaláticas. Eu era aficcionado pelo programa de TV Cosmos, nas manhãs de sábado, onde o astrônomo Carl Segan narrava a história do Universo, apresentando para os leigos em ilustrações de HQs, a beleza dos anéis de Saturno, a vermelha e vulcânica superfície de Marte, os mistérios do planeta Netuno, e a origem do Sol e das estrelas, com sua luz sendo emitida a milhões de anos de distância. Gostava de saber das histórias de Newton e Einstein, que em épocas distintas, quebravam a cabeça, analisando as elementares leis da física para entender o funcionamento desse intrigante planeta, e até me surpreendi, com a forma como Galileu foi sacaneado pela Igreja Católica, quando foi obrigado a negar o que hoje é óbvio: que a Terra não é o centro do Universo.

Fico imaginando o quanto naquela época, meu então jovem pai não deve, no mínimo, ter achado impressionante naquele 20 de julho de 1969, data de seu aniversário, poucos meses antes de descobrir que seria meu pai, o fato de a humanidade ter chegado tão longe, levando o homem à lua. Uma mesma humanidade que cultivava o progresso, num momento histórico incomparável, imersa em tempos loucos e rebeldes de guerra no Vietnã, ditaduras eclodindo em todo o continente latino-americano, manifestações de estudantes sendo repudiadas à balas e bombas de gás lacrimogênio das ruas de Paris a São Paulo, enquanto hippies porraloucas pregavam "paz e amor" numa contracultura de flores, tropicalismo e rock'n roll. Os homens tinham chegado muito longe, desafiando milhares de anos de atraso e diminuta pequenez do gênero humano, subindo mais alto que os céus na escalada da evolução, chegando ao espaço e conseguindo pela primeira vez, botar os pés num satélite natural que foi objeto de estudos, poemas e canções durante tantos séculos.

A chegada do homem à lua me faz lembrar o épico filme de Stanley Kubrick, baseado nas obras de ficção científica de Arthur Clarke, chamado 2001-Uma odisséia no espaço. Lembro-me da música de abertura, "Assim falava Zaratrusta", de Richard Strauss, interpretada pela Orquestra Sinfônica de Viena, inspirada, por sua vez, na obra do filósofo Nietzche, e no gesto do homem das cavernas, na primeira cena, simbolizando salto evolutivo da espécie humana, ao lançar um osso para cima, e num corte de cena, o osso se transformar numa nave espacial. O que parecia mera ficção (ou inverdade para os céticos), em 20 de 1969 se transformou em realidade quando a sonda Apolo XI desceu na superfície lunar, levando seus três tripulantes: Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins.

Muito provavelmente, naquela época, os aniversariantes de 20 de julho, espectadores da célebre passagem de Armstrong pela lua, como meu pai, não tivessem a exata noção de que aquele feito histórico tinha sido realizado não por amor à ciência e pela sede natural do homem pelo conhecimento sobre o Universo, mas sim por uma corrida política e armamentista entre as duas grandes potências mundias daquele tempo: os Estados Unidos e a União Soviética. Num período de disputas ideológicas entre o capitalismo de um lado, e o socialismo do outro, muitos incautos podem não ter examinado que o lançamento do satélite Sputinik, e a viagem ao espaço do russo Yuri Gagarin, no começo dos anos sessenta, tratava-se de uma luta pela hegemonia do mundo entre soviéticos e americanos, que extrapolava as fronteiras do planeta e chegava até o espaço, como se o Universo fosse uma criação deles, e não de Deus.

Divirjo, entretanto, daqueles mais crentes, fundamentalistas, que pelo argumento religioso, acham que o homem deverá pagar um preço caro, por sua arrogância científica em querer singrar os céus, e desbravar o espaço, em busca do infinito. Também não acho que a discussão atual sobre uma nova viagem do homem à lua, seja apenas mais um apelo imperialista de nações poderosas, como ainda são os Estados Unidos, e agora a China, que quer enviar seu astronauta ao solo lunar até 2020, numa tentativa de impor a bandeira da Coca-Coca, do Mcdonald's, ou do governo chinês em nosso satélite natural. Acho que é parte do plano de Deus que conheçamos o Universo, como se quiséssemos através dele conhecer a sua divina face, sem nunca, na verdade, conhecê-la. Como diria o filósofo alemão Martin Heidegger, o Ser se revela paulatinamente aos homens, assim como se esconde, não sendo possível e nem perceptível nos finitos limites da capacidade humana, conseguir compreender toda a grandiosidade do Universo, como uma obra da criação divina. Só nos resta obter os resquícios, conseguir conhecer as sobras, os restos, os farelos da Criação, mediante nossa sempre precária tecnologia, que se hoje é avançada, capaz de enviar engenhocas como sondas e robôs até à superfície de Marte, é incapaz de debelar epidemias, como a horrorosa e crescente gripe suína, ou de terminar com os conflitos e as guerras, fazendo imperar o bom senso em nossos governantes.

A conquista fantástica da ciência ao colocar o homem na lua, e agendar, já para daqui há dez anos, uma viagem tripulada a Marte, não significa nada se não conseguimos transpor o interesse político e econômico das nações detentoras de todo o capital e aparato tecnológico, no sentido de eliminar a cruel fome e as doenças que assolam nosso mundo. O objetivo altruísta de qualquer missão de astronautas ao espaço é desenvolver novas tecnologias, descobrir novas substâncias, novas condições de vida, novos métodos de sobrevivência que nos permitam conviver em harmonia com o Universo, conhecendo-o melhor. É nesse sentido que até as roupas usadas por Armstrong e Aldrin, no passado, quando de sua viagem à lua, serviram hoje como protótipo de roupas de proteção para viagens em condições adversas, como o mergulho em profundezas marinhas ou a caminhada em montanhas, nos mais sensíveis graus de temperatura e altitude. A descoberta de rochas, materiais lunares, e outras substâncias vindas do espaço, serviram para compreendermos melhor o metabolismo de pequenos seres e microorganismos, saber como a água potável se desenvolve e pode ser reaproveitada, para evitar futuros períodos de escassez, e até mesmo a viagem à lua possibilitou que lidássemos melhor com nossas energias, como todas as pesquisas e testes acerca da utilização de fonte de abastecimento enérgico alternativas, a título de preservar o meio ambiente, como a energia solar.

Hoje, um tímido, idoso e simpático Neil Armstrong, em suas raras aparições públicas, destoa no seu comportamento discreto, de seu descontraído e falante parceiro de viagem, Buzz Aldrin, em suas palestras pela Nasa. De forma diferente, a esses dois heróis da humanidade credita-se muito mais do que um passeio por um astro celeste, e a constatação hoje, de um fato irrefutável e inesquecível de superação pelo homem de seus próprios limites, mesmo com o coro cada vez menor dos seus mais desconfiados e céticos detratores, que hoje insistem em postar sem convicção, de que a viagem do homem à lua se tratou de uma farsa, de pura armação. A chegada do homem à lua foi sim, fato inquestionável e digno de comemoração e agradecimento a Deus, por mais um ato de elevação da capacidade do gênero humano, mas também pode significar muito mais para futuras gerações, nos próximos 40 anos. Pode significar vida, desenvolvimento, evolução, crescimento, e isso não se realiza sem paz, humildade, solidariedade e cooperação mútua de todas as nações, em descobrir conjuntamente o que pode ser descoberto, nos confins do Universo, para o bem-estar da própria humanidade. Se isso um dia ocorrer, valeu sim muito à pena Armstrong ter pisado naquele solo, e mostrado ao mundo todo o quanto é bonito ver a Terra na sua coloração azul.


FELIZ ANIVERSÁRIO, PAI! FELIZ ANIVERSÁRIO, ASTRONAUTAS DA APOLO XI!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

POLÍTICA DA SEMANA: DO GOLPE EM HONDURAS À SALVAÇÃO DE SARNEY. O QUE TEM HAVER O RONALDO?

A semana anterior lembrou-me desde o escritor uruguaio Eduardo Galeano, com seu célebre livro "As veias abertas da América Latina"(dado de presente por Hugo Chavez a Barack Obama), até o livro do jornalista chileno Héctor Pavón, sem tradução para o português, chamado El 11 de septiembre...de 1973, que tem prefácio do engajado diretor inglês Ken Loach. A primeira obra trata da realidade política da América Latina, do atraso de sua elite agrária de berço feudal e do processo de dominação dos países mais ricos do hemisfério norte sobre os mais pobres do hemisfério sul. O segundo livro narra a história do golpe militar no Chille, em 1973, quando o ditador Pinochet chegou ao poder, e as últimas horas do presidente deposto Salvador Allende, numa data impressionantemente coincidente com a do ataque às Torres Gêmeas, no muito conhecido atentado no World Trade Center de Nova York, em 2001. São livros portanto que tratam de momentos históricos, de uma realidade muito próxima da nossa, sobretudo num país que passou 24 anos sob o jugo dos militares, num bem sucedido golpe, que também derrubou um presidente legitimamente empossado e produziu décadas de obscuridade, repressão e ausência de democracia no país.



Entretanto, o que aproximou Galeano de Pavón em termos comparativos, foi a sucessão de crises que, internamente, em nossa realidade nacional nos deparamos no Senado, bem como a nível externo presenciamos na América Central, com o golpe militar que tirou o presidente constitucionalmente empossado no cargo, Manuel Zelaya. A meu ver as conexões estão feitas (já que este blog trata de conexões) entre o processo em curso para se evitar (ou não) a "fritura" do presidente do Senado, José Sarney, em prol da governabilidade, e os fatos que engendraram a queda do poder do presidente hondurenho.



No Brasil, o governo Lula, não sem muito constrangimento, tenta dar apoio até o final ao enrroladíssimo e fragilizado Sarney, diante de denúncias e mais denúncias que se acumulam de benefícios escusos, salários exorbitantes pagos pelo erário público para apadrinhados nomeados, atos secretos que sequer foram publicados no Diário Oficial, empréstimos ilegais e toda sorte de maracutaias internas que enlamearam de vez a imagem do Senado. Como num abraço de afogado, o governo tenta salvar Sarney na desesperada tentativa de salvar uma aliança da qual o governo agora não tem mais como recuar, a controversa e polêmica aliança com o PMDB (que já tratamos aqui em matéria anterior deste blog). Da manutenção de Sarney no cargo depende a continuação da tão necessária aliança, da permanência de Sarney no poleiro tão repleto de sujeira, depende a viabilidade da eleição da candidata do governo, Dilma Roussef, ao tão sonhado sonho de prosseguimento do projeto petista de poder, e da própria volta futura ao poder de Lula, já pensando numa candidatura de retorno em 2014, em plena Copa do Mundo no Brasil.



Como um Kirchner argentino, com astúcia moderada e calculado ânimo eleitoral, vale tudo no projeto governamental de manutenção do poder e viabilidade de sua candidata, inclusive, até mesmo valer-se do velho emprego do futebol como instrumento de proselitismo político, visto a recente vitória do Corintians (time do presidente) como campeão da Copa do Brasil. Sobre isso falaremos mais adiante, mas sobretudo é preciso analisar qual essa lógica que o governo vem adotando e que cálculo é esse, tramado por um astuto Lula, que vê tanto na preservação do último dos coronéis do Brasil no Senado, como na ascensão de Ronaldo Nazário e seus companheiros de chuteira, o caminho aberto para sua sucessão presidencial, e a vitória de Dilma, a primeira mulher a chegar à presidência da república.



Voltando ao livro de Pavón, sobre o golpe militar no Chile, percebe-se que ao vencer a eleição presidencial em 1971, como o primeiro marxista, militande do Partido Socialista a chegar ao poder no Chile, Salvador Allende cometeu erros básicos, hoje não mais ignorados pelo mais ignorante militante político de esquerda, que é a impossibilidade de governar sem alianças. Que me perdoem os ruidosos militantes trotskistas e esquerdistas do PSTU ou do PSOL de Heloísa Helena, mas governar pela via democrática, através de vitórias eleitorais, sem o apoio da burguesia, é impossível, no âmbito de uma sociedade capitalista. Foi esse o principal dos erros cometidos por Allende ao chegar ao poder, e que lhe custou o cargo de presidente e a vida. Adotando as linhas gerais de um programa democrático-popular de profundas reformas na economia e na sociedade chilenas, fiel ao seu ideário marxista, Allende estatizou empresas privadas estrangeiras; nacionalizou bancos e minas de cobre; democratizou o ensino, permitindo o acesso no mesmo nível de crianças e jovens de camadas sociais diferenciadas no mesmo ciclo; promoveu a reforma agrária e democratizou o acesso ao poder para os trabalhadores, recebendo associações e sindicatos. Por outro lado, a ausência de apoio político da direita, e do centro, especialmente da Democracia Cristã, levou ao fortalecimento de setores da média e grande burguesia, insatisfeitos com as reformas populares adotados pelo governo socialista chileno. Não demorou para que o caos, os boicotes de produtores e distribuidores ao governo, a crise de abastecimento com o desaparecimento de gado e produtos nos supermercados, o ágio, a especulação, e até mesmo atentados com cortes de energia, de água e gás fizessem com o que a vida do cidadão chileno se tornasse um inferno, insuflando os militares, através das forças mais reaçonárias, contrárias às mudanças, totalmente subordinadas aos interesses do capital internacional, e herdeiras de um passado fascista, a assombrar todo o continente latino-americano, como bem desenvolveu Galeano em seu célebre livro.



Talvez para evitar ser um "Allende de ocasião", o presidente Lula ao chegar ao poder tratou, antes mesmo de ser empossado, de adotar uma postura conciliatória, mediante o seu "carta aos brasileiros", nas eleições de 2002, manifestando claramente sua intenção de realizar um governo de reformas, mas sem as mudanças estruturais defendidas por seu partido, há mais de vinte anos; bem como em sua reeleição tratou de arquitetar todo um caminho para obter o apoio político da legenda mais disputada da política nacional, o lendário PMDB, que em todos os governos desde o renascimento da democracia no país, necessitaram do apoio da antiga agremiação do também mítico Ulisses Guimarães. Mesmo sabendo que hoje, o PMDB é uma colcha de retalhos de interesses individuais e corporativos, desde os grupos políticos mais atrasados (representados pelo clã Sarney), até posturas mais liberais, como a de um Roberto Requião no Paraná, Lula fez de tudo (e continua fazendo) para manter o PMDB aninhado com o governo, sob pena de comprometer a própria sobrevivência política do governo, agora totalmente refém de um controverso e desacreditado Renan Calheiros, com sua trupe.



Para manter Dilma, e manter o apoio do PMDB, tornou-se necessário então, a qualquer custo, salvar Sarney. Mesmo sendo sabido que durante décadas, não só no atrasado Maranhão no governo estadual, mas também no Congresso, a família Sarney sempre encarou o poder público como balcão de privilégios (como todos os políticos tradicionais brasileiros), e a ruidosa avalanche de escândalos envolvendo seu principal patriarca, o governo Lula não viu outra solução senão puxar a rédea da bancada petista no Senado, fazendo com que o partido (até outrora guardião da ética no Legislativo) tivesse que arcar com o vexame de ver seus parlamentares recuarem, após uma declaração pública dos senadores petistas de que iriam apoiar o afastamento de Sarney da presidência do Senado, e após um constrangido Aloísio Mercadante ter visto o tapete da bancada petista ser puxado pelo governo, no mais público e ostensivo puxão de orelhas da história do Congresso Nacional, impedindo seus parlamentares de se unirem ao coro dos descontentes, na oposição, que lá viram uma oportunidade singular de atingir o principal aliado do governo.



Talvez Lula não queira acabar como Allende, ou não queira terminar como Zelaya, presidente hondurenho, também apeado do poder mediante um golpe de Estado. O que ocorre é que, em prol da tão acalentada governabilidade e pela manutenção de um projeto político de poder, o presidente acaba por comprometer sua própria popularidade, e a legitimidade política de seu partido, ao trocar os pés pelas mãos, vender sua alma de Fausto ao diabo pemedebista, e deixar permanecer no poder da câmara alta do legislativo nacional, um político coronelista desacreditado, muito "mal na foto" com seus pares, que agora pedem (de maneira oportunista ou não, sua cabeça), em nome da ética ou em por interesses eleitoreiros da oposição. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come, e na lógica do governo, caso sua bancada no senado apoiasse a queda de Sarney, tal queda significaria o fim da aliança com seu principal aliado, o fim do sonho de ter um pemedebista na vice-presidência da chapa de Dilma, o fim da obtenção de uma maioria no Senado, e o fim do próprio projeto petista de poder, pela inviabilidade de governar ou de eleger um governante sem o apoio do PMDB. De fato, a meu ver, a entrada tão profunda do partido de Sarney nas entranhas do governo federal, acabou revelando uma síndrome de dependência que nem o pior dos viciados conseguiria se livrar. Diante de tal quadro, agora vale tudo, e na relação custo-benefício, segundo o governo, é melhor que a fruta caia por si própria, de tão podre, do que ser ajudada a cair. Portanto, para o governo, se Sarney cair, que caia por motivação de seu próprio partido, e não com a ajuda do PT ou do governo.



Enquanto isso, apesar da opinião pública desacreditar cada vez mais do Senado, o presidente Lula tenta compartilhar sua popularidade com seu time de coração, não deixando de fazer com o Corintians o mesmo que o governo militar da ditadura fez com a seleção brasileira de 70, após a vitoriosa conquista do tricampeonato mundial. Naquela época, jingles foram cantados, slogans foram montados, adesivos foram fixados nos carros, num poster de um Pelé triunfante, de braço erguido, num país onde os perseguidos pela ditadura gritavam, mediante tortura, nos porões dos quartéis, enquanto nas ruas, uma população carnavalesca entoava a vinheta do governo, erguendo a taça Jules Rimet, com o refrão: "esse é um país que vai pra frente", ou segundo o slogan: "Brasil, ame-o ou deixe-o". Agora em 2009, Lula, recebendo com entusiasmo e vestido com a camisa do Timão, a um também remediado Ronaldo Nazário, com seus quilos a mais, mas vitórias diretamente proporcionais ao seu peso, parece dar um recado bem claro ao eleitorado: "se o Corintians vai mais e pode ser campeão da Libertadores no ano que vem, por que também não Dilma?".Enquanto isso, no aeroporto de Congonhas, uma alegre torcida corintiana em coro, recebe seus jogadores com o sugestivo grito de guerra: "ão,ão,ão, a Dilma é do Timão"! Mais proselitista do que isso, impossível!!



Ter Dilma presidente no ano que vem ou o Corintians erguendo a taça na Libertadores, é dificil saber qual é o projeto mais acalentado por Lula, mas o que se sabe com certeza é que, com Dilma ou sem Dilma ou com ou sem Timão, o que Lula não quer é terminar como Salvador Allende no Chile ou como Zalaya em Honduras, mesmo que seja às custas de manter um fritado Sarney no Senado. Até os próximos capítulos!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

LUTO:"One day in your life!!-LONGA VIDA AO REI, O REI ESTÁ MORTO: A morte de Michael Jackson


Morreu o Pop! Morreu Michael Jackson! Aos 50 anos de idade o coraçao daquele que foi coroado rei da música popular global deu seu último suspiro numa ambulância, a caminho do hospital, em Los Angeles. A notícia pegou de susto o mundo da música. Nao que artistas sejam imortais, mas a morte de astros do quilate e da controvérsia diretamente proporcional ao talento de Jackson causam, naturalmente, profundo espanto. Ao menos foi isso que pude perceber na reaçao de muitas pessoas ao receber a notícia, que, meio atordoadas, achavam que se tratava de alguma brincadeira. Mas, nao, Michael is dead!





Alguns podem me chamar de oportunista ou de nao ter assunto para postar, mas a verdade é que eu gostava (mesmo) de Michael Jackson. Digo nao por causa de sua aura mística de "rei do pop", de sua música contagiante dos primeiros discos, ou pela curiosidade pelas suas esquisitices, mas sim porque ele representou bem uma época. Em meus surtos de nostalgia a música de Jackson e seus videoclipes representavam a essência dos anos oitenta, representavam minha inocência perdida de adolescente descobrindo o mundo (e passando a curtir muitos outros grupos e músicas depois), mas ele representava um tempo que agora, perto de 2010, finalmente terminou. Com Michael Jackson se vao, de vez, os anos oitenta!


A cultura de massa vive de revivals, foi assim com os anos sessenta e é assim nesta primeira década de novo século que está prestes a acabar, com a nostalgia dos anos oitenta, a volta da sonoridade daquele tempo, as remontagens, as bandas e grupos novos de musicalidade inspirada naquela época, na volta de sèries consagradas do período, como o Exterminador do Futuro, nas festas "balonê" que acontecem no sul do país, e nas repetiçoes nas rádios do som de Mister Jackson.

Pois que agora tudo isso acabou com a morte de seu maior ícone. Apesar de Madonna e grupos como o U2 terem se consolidado nos anos oitenta, estes há muito deixaram de ser expressao de seu tempo, e, ao contrário, souberam (ou tentaram) se adaptar aos novos tempos, buscando outras sonoridades, já o velho MJ nunca deixou de registrar sua marca própria, muitas vezes obscurecidas nos últimos anos pela valorizaçao excessiva de suas bizarrices.

Sim, creio que Jackson foi vítima de seu próprio sucesso. Hoje, seu comportamento infantilóide e destrambelhado pode ser explicado pelos melhores psicólogos, mas revela também a voracidade da mídia em explorar os defeitos de seus astros, tornando nao apenas humanos, mas ridículas as fraquezas de seres outrora "imaculados". Os artistas pop sao hoje os santos de antigamente da sociedade midiática, os mitos que fazem multidoes chorarem e cantarem suas cançoes, numa idolatria que há muito deixou o sagrado e acabou por se tornar profana. Grandes nomes da teologia e da ciência da religiao, como Rudolf Otto e Mircea Eliade jà falaram do mito do sagrado, e na cultura pop do final do século XX, em termos de arte, Michael Jackson levou o sagrado até sua última instância, sacralizando o profano, tornando-se ele mesmo um profeta da nova sociedade culturalmente globalizada que viria a surgir, com suas MTVS e internet. O cantor de Billie Jean, Beat it, Thriller e Bad nao foi apenas um músico negro talentoso que saiu de um grupo antológico dos anos setenta, como o Jackson Five, mas foi também um astro que inaugurou uma nova forma de diálogo com o público, numa aura só conquistada hoje por jogadores de futebol. Numa típica alusao weberiana, Michael Jackson extraiu o carisma dos líderes religiosos, para transformar isso num poder midiático que assombrava os palcos, arrastando multidoes e mais multidoes extasiados com seus passos de dança, seus falsetes naturalmente entoados, sua perfeiçao de timbres e agudos, e sua, por que nao dizer, filantropia, quando reuniu os maiores nomes da música popular norte-americana para ensaiar uma versao yankee do Live Aid, em prol das vítimas da fome na África, cantando a clássica We are the world.

Musicalmente falando, e nisso a crítica musical fala no mesmo tom, o primeiro álbum do músico:Off the wall, até mais do que Thriller (o disco mais vendido da história), até hoje é considerado um dos melhores discos de música popular do século, aliando o melhor do velho soul com a mais sofisticada música pop dançante. É como se no Brasil, Jorge Ben Jor, Tim Maia e Roberto Carlos se fundissem num único artista, com qualidades vocais e musicais invejáveis, fazendo uma música que até uma múmia egípcia sairia da tumba para dançar. Um som democrático, palatável, associado a todos os gêneros, faixas etárias e naçoes, seja em qualquer idioma. Essa foi a principal marca do pop e isso foi trazido por Michael Jackson. Com Jackson, o pop se globalizou.





Michael Jackson nao foi apenas um grande músico e fenômeno de massa analisado pelos sociólogos. MJ foi um conceito. Um conceito em que um cantor negro acabou por "enbranquecer" ou ser tao e simplesmente uma celebridade global de origem afro-americana que mais se tornou conhecida no mundo, e que se tornou , de sua maneira, um precursor de Barack Obama. Com Jackson o pop finalmente surgiu nao como uma mera casca comercial, sem conteúdo, mas como uma tendência da música contemporânea, onde o funk "a la James Brown" finalmente saiu do gueto, deixando de ser apenas "música de preto", e se tornando música de brancos, negros, pardos, amarelos, vermelhos, como bem entoou o autor da cançao Black and White. Para mim, é esse tipo de talento e a contribuiçao histórica para a música contemporânea que terao mais relevância e ficarao para a posteridade, do que as acusaçoes de abuso de menores, as excentricidades, a vida perdulária e infantil, os relacionamentos amorosos fracassados (dentre eles, com a própria filha de Elvis), as acusaçoes de querer ficar branco, renunciando a sua cor (apesar de jurar de pé junto e os médicos confirmarem que o astro sofria de vitiligo) ou até mesmo o destrambelhamento do cantor ao expor um de seus filhos pequenos na janela de um hotel, a ponto de assustar os cinegrafistas quase deixando a criança cair.


Outros poderao me detratar por estar lamentando a morte de um suposto pedófilo. Ora, desde o Casseta Planeta, até as comédias juvenis bobalhonas norte-americanas, todos já satirizaram ou ridicularizaram o outrora rei do pop, tornando-se um verdadeiro reality show, o julgamento do artista, no começo dos anos noventa e depois no começo deste século, por acusaçao de abuso sexual de menores. A barra pesou e pesou muito para Jackson, mas o pior foi saber como a pressao acabou por abalar o coraçao do astro, que deu mostras de esgotamento definitivo com seu culminante falecimento, ontem. O pior nao foi, para quem é ou foi fa de Jackson de saber que seu ídolo enfrentava pesadas acusaçoes que poderiam levá-lo à cadeia pelo resto da vida. O ruim foi saber o quanto o peso de tantos anos e anos de insucesso e dúvidas na conduçao de sua vida pessoal, levaram Jackson à ruína, nao só financeira, mas também moral. A Neverland do astro se tornou cara demais, e ele acabou por se fechar em seu mundo cada vez mais desmoronado, que terminou numa parada cardíaca, dentro de casa, quando o artista planejava sua redençao numa nova turnê este ano, programada para o segundo semestre, que jamais se concretizará.

Neste momento, sobretudo nos Estados Unidos, milhares de fas chorosos se encontram em romaria, sem acreditar que seu maior ídolo partiu e nao pertence mais a este mundo. Assim como Elvis, creio que nao tardará para existir uma legiao eterna de fas que sempre acenderao suas velas, e repetirao em uníssono, na negaçao clássica de fa, que: "Michael nao morreu!!". Entretanto, mais do que a tristeza, ao menos para mim que nunca fui fa, mas gostava das músicas e das performances do cara, fica a saudade, de um tempo que nao volta mais, que seu destino é nao voltar, assim como faz parte do destino seguir em frente, e, pelo menos no meu caso, chegar à maturidade e tentar envelhecer com dignidade. Se os anos oitenta morreram em definitivo com Michael Jackson, que venham os noventa! Adeus, MJ! Fique em paz!

Gates e Jobs

Gates e Jobs
Os dois top guns da informática num papo para o cafézinho

GAZA

GAZA
Até quando teremos que ver isso?