sexta-feira, 5 de março de 2010

FILOSOFIA DA LINGUAGEM: Como entender um "pé na bunda" utilizando Wittgenstein:como as mulheres são sintáticas e os homens são semânticos.

Na última semana tive a oportunidade de conversar com duas amigas com assuntos semelhantes: ambas estavam pensando em terminar suas relações com seus últimos namorados. Ensaiavam qual seria o melhor "fora", a melhor negativa, ou seja, enfim o melhor "pé na bunda". Tentei prender dentro do mim o corporativismo masculino que acompanha o homem nessas horas, solidarizando-me com os pobres namorados enxotados da vida de suas respectivas, e busquei entender mais uma vez o enigmático, imperscrutável, mas sedutor universo feminino. Escutei as razões de ambas, pude comparar com situações anteriores (inclusive as minhas) e após ter escutado tantos relatos, cheguei a seguinte conclusão que há algum tempo me serve de hipótese e me acompanha: nas relações amorosas as mulheres são sintáticas e os homens são semânticos.

Mulheres se valem de simbolismos enquanto que os homens necessitam da intermediação das palavras, da linguagem falada ou escrita para interiorizar as mensagens do sexo oposto. Digo isso levando em consideração os conceitos de sintaxe e semântica na linguística a partir do estudo da pragmática, nos tratados de semiótica. A sintaxe se preocupa com a composição dos símbolos entre si, o jogo de palavras, gestos ou sinais, dentro de um significado mais amplo; ou seja, a sintaxe trabalha com símbolos. Já a semântica diz respeito à representação entre os sinais e a realidade, interpreta o significado desse sinal de acordo com a forma como se apresenta; ou seja, a semântica ocupa-se de sinais, preocupa-se com as palavras e o significado que elas tem na linguagem.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foi um filósofo austríaco que melhor estudou a linguagem no século XX. O interesse por sua obra o elevou a ícone pop pelo fato de que na filosofia de Wittgenstein pode se falar praticamente de tudo, pois ele era um apaixonado pelas questões mais intrigantes do ser humano.Célebre é sua obra Tratactus, sua tese de doutorado, assim como suas Anotações sobre as Cores. Ele entendia que a filosofia não é apenas um âmbito de reflexão, mas uma forma de vida: "a filosofia não é uma teoria, mas uma atividade". Por viver a filosofia é que Wittgenstein tornou-se um autor de escrita tão intimista e peculiar, que seduziu seus leitores e interlocutores, seja através de suas obras filosóficas, ou por meio de suas cartas.

Wittgenstein, por exemplo, vai anteceder os blogueiros, pelo menos alguns que, como eu, acreditam que o blog é um espaço para falar de si e para falar do mundo e com o mundo, ou seja, um ambiente virtual para filosofar. Ele se valia de diários (assim como, hoje, nós nos valemos dos blogs, nossos diários virtuais) para expressar seus pensamentos pois entendia que "o diário é um laboratório filosófico". No diário não temos somente a liberdade de escrever, temos a liberdade de pensar, e podemos sempre reativar o nosso pensar através da escrita (papel fundamental da linguagem): "Apenas não se importar com aquilo que uma vez se escreveu! Apenas começar sempre de novo a pensar, como se ainda não tivesse acontecido nada", ele irá escrever em seus diários.

Não obstante a vida pessoal tumultuada (Wittgenstein era homossexual assumido e apaixonou-se, ao menos, por dois alunos), o que me soa mais de interessante entre as confissões e arrependimentos desse filósofo vienense e que influencia sua obra não é tanto o peso de seus sentimentos ao refletir sobre a vida e a alma humana, mas principalmente a visão que se tem do mundo através da linguagem. É por aí que as pessoas se relacionam, principalmente no âmbito afetivo. Homens e mulheres se relacionam mediante uma combinação de símbolos e sinais, mediante jogos de linguagem. Minha tese, invocando Wittgenstein, é de como essas interações podem se dar de forma diferenciada, de acordo com a diversidade de gênero, não por ser uma questão da natureza da diferença (sexos opostos), mas, muito mais por um condicionamento cultural. Se está achando difícil o que estou falando ou uma tremenda bobagem de alguém que ficou doidão, agora explico!

Em primeiro lugar, Wittgenstein faz uma diferença entre símbolos e sinais. Os sínais representam realidades, enquanto que os símbolos são transcendentes.Uma coisa é eu representar com um sinal, dirigindo meu dedo indicador e o médio à boca, indicando que sou fumante ou estou pedindo um cigarro, outro, é alguém encontrar um cigarro depositado num cinzeiro em minha casa e entender que sou fumante.Entendo que as mulheres são muito mais perspicazes em interpretar símbolos, atribuindo novas significações a partir da função que essse símbolos podem ocupar na linguagem (tornam-se sintáticas), enquanto que os homens, ao contrário, só conseguem elaborar as coisas da realidade e  interagir com o outro, mediante a apresentação de sinais. É por isso que, nos afetos, é muito mais difícil para um homem interpretar um "não" de uma mulher, se ela não dizer textualmente, do que uma mulher interpretar esse "não" vindo de um homem, a partir da interpretação de um gesto, de uma conduta, de um acontecimento, que tem uma relevância simbólica muito maior para a mulher, do que para o homem.

Wittgenstein afirmava que as pessoas se comunicavam por meio de uma troca de sinais, um jogo de palavras. As palavras são sinais por excelência, mas a linguagem vem carregada de símbolos, que podem sim, ser interpretados durante o processo de comunicação, e serem fundamentais para o desenvolvimento ou desenlace de uma relação.

O que torna as mulheres simbólicas é que elas se atém mais, por sua formação cultural, a interpretar cores, odores e gestos, diferente dos homens que prendem mais sua atenção ao significado das palavras. Talvez isso explique a predisposição maior que os homens tiveram durante séculos a serem poetas, uma vez que as mulheres, dentro do patriarcalismo herdado de uma cultura judaico-cristã, ficavam limitadas à simples leitura de textos ou mesmo ao  analfabetismo, para não se ocuparem com o mundo das palavras, mas sim com o mundo dos gestos, onde se tornaram talentosas em artes como a dança ou a própria música (não como compositoras, mas como tocadoras de harpas). Poetisas sempre foram uma rara exceção na história da literatura, e muitas sucumbiram diante dum ostracismo forçado de uma sociedade masculinamente opressora. Já os homens, desde os gregos, privilegiaram sempre as palavras, tornaram-se hábeis no discurso, ágeis políticos, juristas, filósofos e poetas, que se valiam das palavras como um exercício retórico de poder, mas também como uma forma de compreender o mundo.

Talvez pelo fato de terem sido condicionadas a serem mais simbólicas, as mulheres puderam cultivar, afinal, uma característica cara, singular e que acabou por lhe dar em troca da supremacia masculina, um poder maior sobre os homens no momento de interpretar símbolos. Uma mulher é muito mais capaz de interpretar se um homem a deseja ou a repudia, pelo simples gesto dele de perguntar seu telefone, MSN ou ficar com as maçãs do rosto avermelhadas ao vê-la, assim como ela interpreta quando um homem não a quer, quando após uma ou duas saídas, ou mesmo durante todo um relacionamento, ele não liga mais para ela, ou manifesta algum tipo de descaso como vestir-se apressadamente em direção a porta, indicando que está por partir.

Os homens, ao contrário, como são semânticos, necessitam interpretar o significado dos sinais, o sentido das palavras, precisam ouvir um "sim" ou um "não".Não lhes basta o descaso da mulher, interpretado simbolicamente em gestos, mas sim que ela se expresse a ele diretamente, dizendo que o quer ou não o quer mais. Os homens necessitam das palavras, porque no jogo da linguagem de que trata Wittgenstein, eles são cada vez mais dependentes das regras do significado. A regra do "levar um fora", por exemplo, implica que o homem receba, no mínimo, uma carta, um e-mail com o desfecho da relação, ou, ao contrário, quando quer dispensar uma mulher, fazer do mesmo expediente, tão somente mediante a insistência dela de que ele se comunique pela palavra, pois, nessa condição, o homem também tem a interpretação de como a mulher é mais simbólica na interpretação do que está colocado na linguagem; pois ela já saberá de antemão que o cara "pulou fora", sem que ele necessitasse expressamente se manifestar. Canalhice? Não, espírito humano!

Um problema que eu encontro nesse comportamento masculino, mais uma vez recorrendo ao filósofo vienense, é que presos no jogo dos significados das palavras (semântica) os homens tendem a ser cada vez mais solipsistas. Wittgenstein explica o solipsismo ao empreender sua teoria filosófica na psicologia, ao dizer que o solipsismo consiste que, para aquele que se debruça sobre a realidade, nenhuma realidade realmente importa se esta for independente de sua própria consciência. Isso implica em dizer que o ego do indivíduo solipsista é tão cheio de si que ele somente acha que a realidade é apenas aquilo que ele produziu por sua própria linguagem; ou seja, na hora em que o homem "quebra a cara" num relacionamento ao não entender simbolicamente a insatisfação da mulher no meio da relação, acaba por sofrer uma fratura ainda maior em seu ego, que compromete sua estrutura psíquica e sua autoestima, quando, do meio da nada (ao menos para ele), a mulher chega desafiadora e num rompante mais ou menos premeditado, simplesmente diz para o sujeito: "acabou"!!! Os homens constroem um mundo próprio para si a partir das palavras, ignoram gestos, símbolos, manifestações que partem da mulher que podem indicar que ela está sofrendo. Para o homem, enquanto a mulher não reclamar verbalmente, está tudo muito bom!

O problema das relações amorosas, conforme minha tese, à luz do pensamento de Wittgenstein, leva-me a pensar, portanto, que, ao menos no âmbito das interações, o drama profundo dos relacionamentos passa por um problema de comunicação, um problema de linguagem. Como homens e mulheres são intérpretes distintos dentro desse universo complexo que é o de dizer ou não dizer realmente como se traduz o sentimento, faz com que muitos sofram (tantos homens, quanto mulheres) com o inevitável dilema das crises conjugais e relacionais que levam tanto ao fim namoros, noivados ou casamentos. Homens e mulheres não conseguem se comunicar a contento, ou, se conseguem, demonstram uma comunicação precária devido a posicionamentos diferentes dos intérpretes, mediante as regras de linguagem.

Creio que ainda vai levar muito tempo e ainda verei (ou serei) abertamente um ser semântico, que depende de sinais, e da interpretação dos significados que eles me trazem, do que um ser simbólico, como penso que são a maioria das mulheres, que, com sua sabedoria construída após tantos séculos de dominação, conseguem ser bem mais hábeis do que nós(homens) em conduzir dolorosos processos, que poderiam ser bem menos dolorosos se descobríssemos a "mágica" do saber se comunicar. Creio que o estabelecimento de relacionamentos maduros entre homens e mulheres não passa apenas por um amadurecimento individual, mas sim por um amadurecimento de toda a sociedade, se é bem verdade que não temos respostas prontas e acabadas para o problema relacional de ficar ou não ficar com alguém, pois ainda somos escravos do peso de nossos sentimentos, e, a meu ver, sentimento transcende toda a racionalidade que pode ser trazida pela linguagem. Sentimento pode nem sempre ser interpretado bem através de sinais, mas pode sim, muitíssimo, ser compreendido no âmbito dos símbolos. Ao menos essa seria uma primeira resposta ao dilema traçado por minhas amigas, na hora de dispensar seus respectivos namorados, mas não sou nenhum guru da autoajuda, e nem psicólogo com anos de experiência psicanalítica, apenas me dou ao direito de filosofar.

É, desculpem minhas queridas mulheres, mas como homem, vou ficar devendo essa! De qualquer forma, expressando-me semanticamente: um beijo a todas vocês!!

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