segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

FILME " A Troca":E NÃO É QUE CLINT EASTWOOD É FOUCAULTIANO?

Assisti neste final de semana ao filme "A Troca" (Changeling) do diretor norte-americano Clint Eastwood, com Angelina Jolie no papel de Cristine Collins, a principal protagonista.
Prosseguindo com meu circuito de assistir aos filmes do casal 20 do momento: Pitt-Jolie, tendo já comentado o filme Benjamin Button, resta agora comentar o filme estrelado pela senhora Brad Pitt. Ambos, inclusive, cotados para levar uma estatueta do Oscar, no próximo mês de março.
"A Troca" repete uma fórmula curiosamente explorada pelo diretor Eastwood acerca do tema do abuso infantil (vide o oscarizado "Sobre Meninos e Lobos"), em filme baseado no romance ficcção de Denis Lehane. Só que, desta vez, o diretor norte-americano enfatiza mais o drama da mãe do que o do menino que é submetido a abuso, baseando-se num fato real ocorrido na Los Angeles da década de 20 do século passado.
O que ocorre ao se ver o filme é não deixar de ver, pra quem é iniciado nas leituras sociológicas, às influências do filósofo francês Michel Foucault, pela apresentação de muitos temas caros a sua teoria. Parece que Eastwood, ao contrário de muitas pessoas da sua idade, cedeu ao pensamento progressista, ou virou um militante antiestatal de uma hora pra outra, após muitos anos em que sua perfomance artística presenciou muitas mudanças na sua forma de ver a vida. Ora, vale salientar que Clint Eastwood, apesar de bom ator e agora consagrado diretor, sempre foi simpatizante do Partido Republicano de Ronald Reagan e George W. Bush, e ele, agora, como um eleitor vira-casaca de Obama na calada da noite, deixou para sempre o estereótipo do fascista policial Harry Calahan da série dos anos setenta "Perseguidor Implacável"(o famoso "Dirty Harry, como clara inspiração para filmes hoje como "Tropa de Elite"), e se tornou um humilde servidor de causas humanitárias e defensor dos direitos fundamentais. Vide a película rodada recentemente que concorre ao Oscar, estrelada por uma das mais belas, mas também mais convincentes estrelas da hollywood pós-era da globalização.
O enredo do filme é de dar angústia e fornecer traumas a dezenas de mães amigas minhas, pesarosas com a simples suspeita de que um belo dia ao voltar do trabalho, não possam encontrar mais seus rebentos em casa, e não ter a menor ideia para onde eles foram. O filme de Eastwood explora essa caótica situação ao tratar da estória de uma jovem e bonita telefonista chamada Cristine Collins, que em 1928, numa Los Angeles em crescimento e conturbada pela corrupção policial, descobriu num tenebroso dia, que seu filho Walter de 10 anos havia desaparecido sem deixar notícias e nem vestígios.
A partir daí, ressalvados os clichês dignos de um filme de drama policial, a telefonista Cristine inicia sua cruzada para encontrar seu filho, contando com o apoio de um pastor presbiteriano inimigo da polícia, interpretado por John Malkovich. A dupla denuncia a apatia e a negligência policial, até o dia em que, passados meses do desaparecimento do rebento, Cristine tem a notícia de que encontraram seu desejado filho perdido, acompanhado de um andarilho num fim de mundo nos confins do estado. O que parecia ser uma estória com final feliz, acaba em pesadelo, no momento em que Cristine descobre que o filho trazido pela polícia não é seu filho, e mesmo assim, o incompetente delegado responsável pelas investigações, obriga a jovem mãe a acenar para a imprensa e confirmar que a valorosa porém criticada polícia de Los Angeles, ao menos tinha feito uma coisa certa, tendo encontrado o filho de uma angustiada mãe. A partir daí o filme começa de verdade e inicia-se um roteiro digno dos escritos de Dostoievski ou dos filmes de suspense de Hitchcok.
Negando, "de marré marré marré", que o garoto encontrado seja seu, Cristine acaba por irritar a polícia de Los Angeles, sendo então sujeita ao cúmulo do arbítrio, típico de ditaduras sul-americanas, como a malfaldada experiência de Pinochet no Chile. A mulher é dada como louca por não reconhecer seu próprio filho, taxada pela polícia de mãe negligente, e por fim é encarcerada numa instituição manicominial junto com outras tristes mulheres. É a partir daí que o enredo do filme passa a apresentar fortes traços foucaultianos. O que falei no início desse comentário.
Para não estragar a estória, e, principalmente o final do filme, uma vez tendo sido acusado carinhosamente por alguns dos leitores deste blog de antecipar o final da estória em meus comentários, não vou estragar a surpresa. Porém, creio que devo estabelecer algumas conexões (nosso objetivo básico nesse fórum virtual), tecendo algumas reflexões que considerei interessantes:
Todos os temas explorados por Foucault acerca de palavras ou conceitos talvez ininteligíveis para neófitos como "panoptismo", disciplina e sociedade de controle estão ali no filme. Pra começar, a jovem mãe critica um sistema estatal falho e deformado, responsável por atos duvidosos, autoritários e intimidatórios ao questionar a responsabilidade da polícia de Los Angeles, acabando por ela mesma ser encarcerada. Junto ao controle policial, está o controle combinado da instituição policial estatal com a tecnologia médica, vide o parecer de um médico picareta, acionado pelo delegado, dentro das micro relações de poder entre membros do Estado e profissionais da área médica, que confirma em seu laudo que aquela mãe transtornada está psicologicamente instável e sensivelmente perturbada ( vide "Microfísica do Poder" e "História da Loucura" de Foucault). Depois, como se não bastasse, ao ser levada para o hospício, Cristine é submetida aos mais variados tipos de humilhação, uma vez que uma mulher na condição dela (que deve se portar como submissa, diga-se de passagem), não reconheceu o trabalho dos agentes da lei, apresentando-se como histérica e confusa, conforme o relatório do psiquiatra responsável pela direção do estabelecimento. Uma cena antológica é quando uma das internas, uma prostituta levada ao manicômio por ter justamente reclamado de não ter sido paga por um policial, chega para uma atônita Cristine Collins e lhe confirma a lógica dos excluídos, dizendo, em outras palavras, numa época em que os movimentos de emancipação da mulher estavam apenas começando: " o que você esperava, somos mulheres. Mulher é frágil, qualquer comportamento que afete essa fragilidade é tido como desvio ou loucura!". As mulheres que eventualmente questionam o sistema, são jogadas nos corredores do hospício, enquanto "comportadas" mães continuam a ser exploradas, espancadas ou humilhadas por seus maridos, num autêntico "american way of life".
O filme remete a Foucault o tempo inteiro porque ele justamente denuncia as condições de vigilância e opressão a que estavam destinadas as mulheres no começo do século XX, e inova no momento em que descortina que as mulheres, assim como hoje, são apenas um dos pólos, ou um dos destinatários da opressão. Oprimidos são, na verdade, todos aqueles que questionam os rumos de uma sociedade vigente, inclusive as mulheres. E, Cristine, somando sua voz a de todas as mulheres detidas injustamente naquele hospício, torna-se apenas uma fagulha de um movimento de liberdade e desobediência civil que vai tomar todo o filme, além de entrar para os livros de história.
Para trabalhadores que reclamam de salário: a demissão ou a cadeia, para as mulheres: os hospícios. No tempo em que o discurso psiquiátrico é utilizado como forma de dominação ( tá aí Foucault novamente), qualquer manifestação de exaltação feminina diante da opressão ou rebeldia é visto como histeria ou como uma forma de perturbação psíquica que só ocorre naqueles seres humanos desprovidos do cromossomo Y. Diante duma realidade dantesca, opressora, corrupta, totalitária e masculina, eis que surgem vozes como as da personagem de Angelina Jolie, que, inadvertidamente, quando tão e simplesmente buscavam encontrar seu filho perdido, acabam se tornando almas da revolução!
Deixando pra lá aqui as críticas de Isabela Boscov da revista Veja ( que como cinéfila é uma boa frequentadora de videolocadora), toda a suposta afetação de uma Angelina Jolie que quer ganhar o Oscar no desempenho de um comovente papel, apenas traduz o sentimento das indignadas, o sentimento de mulheres que ainda hoje, em todos os rincões do país são vistas com pouco caso em estabelecimentos policiais e penais, seja com desdém ou um misto de provocação, diante de acusações de maus tratos de seus maridos, abandono e desaparecimento de filhos ou quaisquer outros dramas que perpetram a vida de jovens mulheres suburbanas . Que pena tenho eu das jovens mães! Pena não, corrijo, mas sim sublime admiração! Porque, na verdade, mulheres como Cristine Collins, ou muitas outras em tempos e lugares diferentes, tiveram que ser muito "homens" para desafiar e questionar um sistema masculino opressor, que lembra muito bem as instituições nebulosas e decadentes, do autor francês de "Vigiar e Punir".

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